29 de dezembro de 2011

O OGRO SOLITÁRIO


Os cascos batem contra o assoalho de madeira. Mancando, puxo as correntes entre as pernas gordas e sujas de graxa. Dou fungadas intercaladas de assovios e grunhidos. Resmungo. Sou eu o ser que faz esses sons estranhos no andar de cima.

Solto lamentos por cada incapacidade, desânimo ou desmerecimento seu, sou quem fabrica as suas crises de enxaqueca e injeta catarro em seus pulmões, enche de manchas de bolor os seus cômodos.
Engendro automatismos maléficos que corroem o seu agir e pensar. Insemino cotidianamente mau-humor e agonia em seus dias.

A mulher que não há, os filhos que nem existem.

Nada lhe ajuda mais. Você é a má reputação em pessoa. Ninguém vem lhe ver, ninguém quer que você entregue cartas. Seus pombos-correios sem cabeça, a foto da esposa que tanto quis, tudo isso disposto no baú desse sótão. Não é necessário dizer para não beber da água do poço. Já nem pensa em limpar e as defuntas ratazanas cobrem toda a água.

Sim, eu sei, você quer me ver. Entre pela porta do sótão, vem ver a vista daqui de cima. Por sobre as copas de árvores, mesmo que desfolhadas, dessas florestas fechadas, a fumaça das chaminés nos vales ao horizonte. Idílico, não? Depois, dê uma olhada do que guardou no baú do tempo. Ainda jura alguma coisa? Pobre velho! Não há mais nada a querer! Nada mais que lembranças, amargadas pelo
tempo!

Espere, o que quer fazer? Não seja tonto! Para onde aponta? Você não é capaz de
apertar o gatilho, uma vez que sou o seu próprio orgulho. Sei à mirra, sou um bálsamo
para o seu ser. Somente eu posso mudar o curso de sua vida. Somente eu sei onde se
esconde a sua vontade.

Um momento. O que quer no espelho?

Onde você foi? Precisamos falar... Volte, as velhas lembranças tão guardadas, só para
você...

Um tiro chicoteou o ar e vibrou pelas paredes, ecoando pela canalização da chaminé.

Mais tarde, um corvo muito esquecido se interessava pelo resto de calor que
emanava da chaminé quando o homem saiu da casa. Bem agasalhado para o rigoroso
inverno, com uma mochila de andarilho, ele mancou pelo caminho do jardim branco e
saiu pelo portão. Agora o corvo pôde ver: ele tinha uma corrente nos pés.

A neve alta e a corrente não deixaram o ogro solitário chegar tão rápido à sua
próxima vítima. Mas ele não tardará, sabia o corvo.

Não havia ninguém no caminho da floresta. Começou a chover. O ogro parou, abriu
sua mochila, tirou dali os olhos do suicidado. Ingeriu-os e viu. Viu um pequeno pedaço
de caminho para outra casa.



9 de dezembro de 2011

Furo jornalístico e outro textículo

Furo jornalístico
Sim, o furo de seus olhos era jornalístico e ninguém soube antes de mim. Vendo e ouvindo o funk que você dançava, tomei todas. Ignorei quando você, sem me ver, me suplicou não encrencar. Que ideia alienada de irmos para casa, sabendo que aquele diabo estava na festa e estava tirando uma com a minha cara.
Você me achava ignorante? Pois que fosse. Foi assim, aqui mesmo, que eu resolvi tudo: no meio do mato eu matei você e esse funkeiro.
Agora só sobrou esse amanhacer. Algemado voltei o rosto para ver o que ficou marcado: meu amor naquela maresia!

Textículo
Não havia sexo e sim boas maneiras, como já lhe disse antes. As luzes da madrugada era o leite e biscoitos amanteigados que comíamos sem deixar cair migalhas no tapete. Mesmo que só pensasse em lhe jogar e ao seu corpo no chão e derramar leite sobre seus seios, arremessar os biscoitos argola no bonsai de estimação, foder agarradinho e encharcado de suor lhe fizesse confissões sobre meu medo do fim do mundo, sempre havia: pijamas sempre bem passadinhos e boas-noites mais que educadinhas.

Desenho do mesmo caderno da década de 90

23 de novembro de 2011

Armas quentes


 Reinardo é pai de uma filharada, fazendeiro. Empunha rifle para caçar e acerta em cheio. Acertava. Agora que cegou...

Quando fora abrir o campo pela primeira vez, viu que tinha vespa da dourada. Já tinham dito a ele, mas ele lá queria saber? Cabeça dura, escolheu o chão da sua fazenda a dedo e não seriam essas pragas que dificultariam sua vida. Osso duro de roer era, sabia que essas eram das que matavam, muito perigosas para uma fazenda. Reinardo pôs fogo no mato e o vermelho se espalhou pelas imediações. As vespas sumiram, nada mais se soube delas. Mas Seu Genardo da fazenda vizinha não gostou nem um pouco da queimada que acabou matando algumas cabeças de gado.

A Reinardo visitaram ajudantes e capangas de Seu Genardo. Mas assim como foram, um por um, voltavam, atiçados, ou nem mais voltavam, por medo que perderiam o emprego. Um deles até partiu dessa pra uma melhor, de preocupação e coração. Não era de se surpreender que Reinardo logo foi perseguido por profissionais.

Ora, esses vão aprender, disse. É que Reinardo, além de ter olhos de águia, manejava bem demais sua espingarda: Matador seguia seus passos. Reinardo deixava-o chegar perto. Matador chegava no cangote de Reinardo, achando graça. Mas Reinardo era sábio demais, sabia a hora. Matador levantava arma, Reinardo empunhava antes e acertava na testa.

Assim foi. E assim o será, diria, se não chegasse o outono. Outono da vida. Reinardo completou 50 anos, e daí em diante, só complicou. Sua esposa enfraqueceu, cansada das brigas por ciúmes de Reinardo, que vivia pulando muro. Os filhos já na maioridade, sem querer saber nada da fazenda. Depois, depois de muitas advertências e brigas, sua filha preferida fugiu de casa, desejando a ele tudo, inclusive cegueira.

Dores e a maldita da pinga , depois berreiros e psicoses. Até se dizia que, se Reinardo tivesse falado mais antes, iria hoje se ajudar um pouco. Mas não, era caladinho. Estou fraco, já não sei quem chega e nem sei quem vai, pensou.

Pelo caminho de casa, sua filha voltava. Depois de anos sem ver o pai, sabendo da doença, decidiu revê-lo.

Ouvindo o barulho das ferraduras do cavalo de Genardo, Reinardo olhou ao horizonte, deu um tiro para cima. Genardo alterado vinha com a adaga na mão, gritando.

Vendo Genardo chegar na corrida, a filha levantou o rifle e atirou. Inalterado, Genardo aumentando o galope. Mirada, Genardo levantando a adaga. O gibão aumentando de tamanho, a filha espairando até o momento certo. A dimensão do cavalo já cobria a de Reinardo, quando se ouviu o tiro e Genardo segurando a rédea com a mão direita, o corpo caindo e a filha, sem apertar o gatilho.

Genardo caiu aos pés de Reinardo, que apertou o gatilho.

3 de novembro de 2011

O AMOR IRREVERENTE


Burdon era mago de verdade e tinha a solidão como par. E nada mais queria.
Trabalhar lhe dava o dinheiro necessário para poder ser mago. Achava importante
enriquecer e gostava de estar de noite na cidade. Assim como se recolhia aos bosques,
de dia.
Naquele dia o mago saltou do metrô e saudou: „Olá, como vai? E Gil? Mande
recordações a ele, sim?“
A reação atônita da pequena Marjorie, a promessa de dar as lembranças, a porta do
metrô fechando-se, este continuando sua rota: tudo isso aconteceu diante das
reverências exageradas de Burdon, na mão a cartola, na qual o coelho aparecia.
Era dia de apresentação, ele pensou. A casa estaria lotada. O mago estudara os
truques e para o caso desses não darem certo, guardara outros números rápidos para
executar com o coelho. Magia verdadeira sempre vinga, pensou.
Na vista mareada se misturavam as últimas cenas com as coisas sem importância que
passavam no túnel subterrâneo do metrô. Burdon! Ela se lembrou de seu nome e
acordou do sonho que sonhava acordada. Lembrou-se então dos detalhes: há um mês,
no boteco, troca de olhares. Bebiam vinho de maçã junto aos amigos. Quando a terceira
rodada de copos vinha no antebraço musculoso da garçonete, o coelho saltou da cartola
de Burdon, ganhando os aplausos de todos. Os ruídos das mesas cheias cobriam suas
vozes. Ninguém reparou nos dois. Mais tarde um grupo de jovens alcoolizados seria
visto saudando-se com muita festa. Entre eles, Burdon e Marjorie. A risada alegre dela
ecoava pelas aleias e pátios marrons. Bem-querer e os corpos dançando à luz noturna. E
hoje, o que sobrou disso tudo? Recordações a John! Mal sabe esse mago idiota que John
nunca foi meu namorado! Ah, Marjorie! A indecisão era maior que tudo em Burdon!
Era manhã e ele estava a tomar o desjejum. Ela o viu se chegar como um fantasma.
Vendo Marjorie passar, cumprimentou-a: „Olá? Onde vai? E John?“ Depois de um
momento ela disse ser impossível falar de John, não seria sua companheira, nem nunca
havia sido. Burdon pediu desculpas, emudecendo. Não gostava de diálogos e deixou
Marjorie. Fugiu, sem nada dizer. Era de manhã. Marjorie foi vista atrás dele. Talvez uma
sombra matutina distante dele, por entre pátios universitários e árvores grandes? Ela
brincava com palavras, prevendo qual direção ele tomaria. Via o coelho chamando.
Poemas arpejavam em melodias douradas pelas sombras e nuanças de dias de sol
vividos em jardins ingleses.
De tanto brincar, numa esquina perdeu o amado. Já era tarde quando sentiu mais uma
vez que o amava. O mago, invisível, proclamou que viveria sempre à noite e desejou
que Marjorie fizesse magia neste estilo longe dele. Sentenciou a si que magia não
combinava com amor e que, ademais, amor só atrapalhava o artista que se preza. Ela
nem o procurava mais e ficou no seu canto, a chorar: de ofegante sua respiração se
tornou lenta, indiferente.
Sonhos e realidade se mesclavam sem haver diferenças. Ela não sabia mais se era
amanhecer ou fim de tarde quando o havia visto pela última vez. Não sabia onde foi que
se desencontraram. Não pensava nem na razão. Ela era só vontade. Às vezes revolta.
Holofote girando na apresentação do grande mago Burdon! Entraram os passos
estudados, suas mãos estavam rápidas e sagazes, seus movimentos não podiam ser
desvendados. Nos primeiros números, apesar do nervosismo, tudo correu bem. Então,
no quinto número, um pequeno imprevisto. Depois um escorregão. O mago percebeu
que praticamente todos da fileira da frente o notaram e, perplexo, apelou para os
“truques do coelho”. Sempre dão certo!, pensou. Mas desta vez, ó azar, qual foi sua
perplexidade, não achando o pequenino na cartola! A magia lhe disse adeus e a plateia
era só vaias. Logo ouviu as queixas do chefe e se foi. Pro olho da rua, seu mago de
araque!
No quarto de Marjorie pedras perfumadas, sutil iluminação new age e trilha sonora
de desenhos animados. O coelho demorou a ser reconhecido, parecendo se esconder na
parede de bichos de pelúcia. Por fim conseguiu chamar a atenção, mordiscando
Marjorie. Saiu janela afora e ela o seguiu pelas travessas e ruas de Soldempdon, dentro
do metrô e ônibus, o povo a chamando louca-olha-por-onde-anda, até chegar num
bosque.
Era meio-dia e numa clareira Burdon lamentava a perda do coelho, quando a
reconheceu. Ela se deitou e o arranjou sobre seu ombro. Tocaram as mãos sem apagar a
luz do sol. Apenas uma cornucópia cresceu em ramos sobre suas cabeças.

24 de outubro de 2011

Ivo saiu

Micro-Conto (menos de 120 palavras)
Tema: Insônia
Título: Ivo saiu

Ivo saiu

Ivo saiu. Saiu do apartamento. Do apartamento desceu para a rua. A rua se abriu ao longo de seus pés. Os pés caminharam, caminharam para a festa. A festa era música chamando. Os pés o guiaram mais longe, o caminho era de volta, pois acabara a cidade... É que aqui as cidades são pequenas.  Falou com Deus. Tentou dormir na grama, no banco da praça, nalgum lugar. Já era dia. E Ivo foi à missa. Saiu da igreja e saiu de si, não quis voltar, saiu, voltar não, sair. Saiusaiu sem saber ao que veio.

7 de outubro de 2011

A operação de Juanin

A operação de Juanin

Parte 1

A liberdade viera, mesmo que ainda parcial, agora que chegava dezembro. Os estudos deveriam dar uma pausa. O costume dos tempos estudantis já estava cravado na mente de Juanin: começo, novos professores; provas; amizades do segundo bimestre, pois havia-se de comparar as notas, aquela garota e seu olhar; esforço, provas do segundo bimestre; férias de julho; retorno das férias, reencontro com amigos; preparação, provas; contagem de diferença para o quarto bimestre, provas; tudo isto recheado de pensamentos, que, no final, não fazem a diferença.

Juanin via um cigarro inteiro com a ponta queimada, assim como quem quisesse ter fumado de repente tivesse dito: “Deus me espera nos céus”. Na sala, à mesa escura, nada lhe interessa, senão segurar caneta  com a ponta dos dedos. Uma formiga desenha uma estrada na folha de papel onde escreve. O tédio é um Golias e ele não tem nenhuma pedra. Então, seu irmão passa sapateando de frente para ele, de uma porta lateral para a outra fazendo sinais obscenos.

Pausa. Três formigas passeiam pelo seu caderno. Várias outras pela mesa. Juanin parece uma estátua. Olhar? Não há olhar. Poço fundo. Verde. Tom de musgo. Passa a mão esquerda em seus cabelos lisos, olha-a: dez mil fios de cabelo. À luz do sol batendo sobre a mesa, percebe trinta milhões de formigas inocentes.

Inconscientemente, vai para a geladeira o gordo Juanin, sem expressão, considerar o que poderia comer. Avista pepinos em conserva, dentro de um vidro; pressão, força, no sentido anti-horário, lindos pepinos verdes e molhados. Passa por sua mente a imagem da propaganda de uma geladeira, abrindo-se automaticamente e mostrando pepinos - fresquíssimos pepinos.

Fisga qualquer pepino com o garfo: a mordida faz desaparecer boa parte da sua consciência. Seu paladar sente um gosto profundo, que não se extingue, o gosto de validade passada: “ Hm podre”... Com o pedaço suspenso na boca: “Acaso não me engano”? Depois de uma nova mordida: “Mentirá o meu paladar”? Mastiga potentemente o pedaço e por fim o come; Acaba mordiscando a ponta do garfo. Joga o resto do garfo no lixo.

Sua mãe entra na cozinha sapateando, alegre para muitos, mas destoando com o que faltava a Juanin. E como lhe faltavam coisas: nisto caiu-lhe de sua inexpressividade até um ai. Mas isso não interessa.

Há abelhas onde quer que sua mãe vá. Abelhas úteis e consolos amanciados repentinamente. Juanin, ao voltar para a sala onde há alguns minutos estudava, vê as formigas esperando por ele. Passa a mão esquerda em seu cabelo: não há mais que um fio de cabelo. Tranpassa a sala, para subir a escada, algumas formigas se agarrando nele, “procurando açúcar".

Subindo os degraus, encontra-se com seu pai dando cambalhotas, o jeito mais fácil para tudo, distribuindo dinheiro ao mundo e a todos os espíritos, enrolado na máxima propagandista “o que os outros podem, você pode também”. E se foi, cambalhota sobre cambalhota. Saravá!

Ah, a escada de mármore branco, um canto gregoriano, uma missa solene, ah, um gospel suingado! Juanin percorre o corredor do andar dos quartos “branco-escuro-branco-escuro” e entra no seu quarto de dormir num salto triplo mortal.

Fosco. Toca-lhe um cheiro de sono movido por narinas quentes: seu irmão dormindo e um verme de cupim fazendo cócegas em seu pé. Circunda o hálux, mais conhecido como joanete, aquela deformação no osso do lado do dedão do pé. Vendo em detalhe, o circundam outros milhões de cupins, como numa Meca, vindo a ser, então, a joanete, talvez, uma pedra sagrada. Juanin repara de novo sob a luz fosca e vê os cupins devorando sua cama. Não faz nenhuma diferença naquele momento: Juanin se deita. Pelas cócegas o sono vem e ele, como num dever, se encolhe e por fim se deita na cama. Os cupins, devorando seu corpo em cócegas, as fezes destes animais por fim fazendo ressurgir um novo Juanin.

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Acordando, Juanin sentiu seu corpo mole, volumoso. Gosto de glicose de hospital. Juanin foi entender o que acontecera, enfim, quando viu que não conseguia mexer nem um dedo, nem nenhuma parte do corpo. Depois de entender, encarou o botão sobre sua cama como a campainha para chamar a enfermeira.

26 de setembro de 2011

O PEIXE QUE UIVAVA


O PEIXE QUE UIVAVA

            Ele foi visto pela primeira vez na noite em que a chuva torrencial começou. Ninguém sabia de quem era, de onde viera – se dos lados da lagoa insólita ou da rodovia da mesmice. Ora ia em direção da lagoa, ora virava-se e tomava o rumo oposto, para a rodovia.
A reação ao vira-lata era nula, pois se esperava que ele um dia seguisse o rumo para um dos lados e acabasse qual um cachorro como muitos outros da lagoa ou um cadáver para a fome dos urubus. Por ele continuar ali na cidade, uns poucos até o condenaram. Mas, estando todos no rumo que a vida toma, nos afazeres diários ou em direção de suas casas, chegando a algum encontro importante não-se-sabe-para-quê, as condenações não passaram de uma ou outra frase sem maior importância. Vira-lata é mais coisa do que ser vivo. De modo que, ignorado, soube ignorar, mostrando sua língua salivante e um tanto suja de terra ferruginosa.
Quando a chuva forte chegou, todos os transeuntes sumiram, a fim de se salvarem. Assim, tudo ficou ainda mais fácil para o cachorro. Ele decidiu se plantar no meio da rua e aguardar o fim da torrente. Enrolou-se em torno de si e ficou imóvel.
Choveu sete anos ao todo. Comecei a marcar no meu calendário quando notei que das paredes de casa começaram a aparecer pingos condensados. E os dias se foram, lentos, mas convictos.
Ao final das chuvas, pouco tempo ficou para tristes pensamentos. Pouco tempo para o luxo de pensar em si. Todos averiguavam os danos causados. As casas abandonadas que antigamente tinham armários, janelas, persianas, agora tinham peixes mortos, cadáveres de marrecos e garças. Onde antes um tapete simples, agora lama e terra.
E poucos viram o cachorro levantar a cabeça, olhar para trás, como a espreguiçar-se. Depois,  à direita e à esquerda, observou. Havia valas em ambos os lados da rua, por onde o rio de água turva correu carcomendo o pavimento, e dessa forma protegendo o cachorro da enchente. Ali, no meio da cidade e no centro da rua, ele ficara intacto. À margem de tudo, pois ninguém mais o notava, tomados que estavam todos pelos cuidados com seus pertences deixados nas casas ou o que a chuva abandonou para contar história.
Foi a família Piero, do circo que pegara fogo no verão antes das chuvas, que primeiro se atentou ao fato dos pelos do cachorro terem caído durante o chuvaréu. As crianças, cheias da tragédia dos adultos, prontamente começaram a passar suas mãos na pele canina, brincando com ele. Ele não apenas estava sem pelos, mas também com outro tipo de pele. Eram escamas.
Atrás das crianças, alguns adultos viram o cachorro. Para a surpresa de todos, quando ele se levantou e se espreguiçou, mostraram-se barbatanas entre os membros e o dorso; e ao receber um prato com água, para beber, ele fez movimentos de boca como um peixe e pulou para dentro.
Quando as forças do Exército vieram com mantimentos e foram consertar provisoriamente o pavimento das estradas, ficaram sabendo da novidade. Acabaram achando-o em uma apresentação de circo: "o peixe que sabe uivar". Ficou claro que o tal peixe era um fenômeno biológico. Ele seria um prato cheio, pensavam os cientistas, e todos já se perguntavam quando iriam capturá-lo, fazer experimentos, gravar o DNA e todas essas coisas.
Foi Tchuí Piero, o caçula do circo, quem, cheio de medo, largou por fim o peixe no rio: melhor entregá-lo à natureza, do que às revistas de biologia e às catacumbas de espécies, pensou. A partir desse dia não se viu mais o cachorro-peixe. Só nas noites se ouvia o seu misterioso uivado. Até que um dia um publicitário o achou em um site de relacionamentos.

24 de setembro de 2011

PRELÚDIO E FUGA SOBRE PÓS-MODERNIDADE

Prelúdio e fuga sobre pós-modernidade

Prelúdio:
Probabilidade. Oportunidade. Eis a obscuridade. Onde está a certeza? E o desejo, fogo? Querer. Gostar. Amar. Acontecer? A certeza! O colorido virou preto & branco e nas fotos momentos, segredos em mim. Mas não existe mais do que consciência objetiva.
Passado. Todas as visões, todos os espíritos e as probabilidades têm forma. Que as deixe ser, como se houvessem sido removidas as partes de um inteiro constantemente. Desligue-se do objetivo e penetre na crítica para o mais humano, meu ser!

Fuga:
Tema Desenvolvimento Compassos intercalados Ecos de calor abafado sonhos fritando Minha mente rodopia Significante riacho Meus braços são curtos demais para segurar o rio-mar sonoro que corre com todas as cores todas as dores todos os amores todos... célere o contraponto aponta ao plano físico além do plano físico além do plano físico Significado

16 de setembro de 2011

O IMERSO OUTRO


Fim de semana. Sobre o sofá a caixa preta: a máquina do tempo, um presente de um amigo. 
 Joca acordara indisposto naquele sábado e não sabia se havia tido sexo. Geralmente tinha todos os dias com Peter, seu namorado, no horário de almoço. Conheciam-se há tanto tempo, que já não sabiam dizer nada de especial ao outro.
 Na falta de disposição, acordado demais, Joca decidiu ir até a janela. O algodão dos álamos voava entre as casas da rua. Acendeu um cigarro, fumou-o.
 Acabou acordando Peter e lhe disse:
 — Peter... Peter... Hoje acordei com uma vontade danada.
 Com sono, ainda não entendendo, o outro questionou: 
 — Por que hoje? Fodemos durante anos e anos e você nunca disse estar com vontade.
 Não era o jeito de Peter e Joca fez ares de gracioso, queria beijar Peter, passar a mão, mas este encolheu e quis saber o motivo daquela vontade de danar.
 — Você tem um outro?
 O homem com uma vontade danada, não sabendo o que dizer, calou-se. Mas, depois de alguns segundos, retrucou:
 — Você... tem um outro?
 Ensaiando sair da cama, Peter buscou ar e disse:
 — Tenho. 
 Depois de um instante, constatou: 
 — Ele é o meu amor consumado e nunca havia me dito de acordar com uma vontade danada. Não parece ser esse aí com quem eu estou conversando agora...
 Joca, atordoado, perguntou:
 — O que devo fazer para provar que eu sou o seu outro?
 — Dê duas piruetas no ar e vomite, respondeu Peter desinteressado.
 — Ih, mas que humor. Pra que isso?
 — Ah, não fala mais nada. Você me mata com o seu tesão.
 — Mas... assim é: Eu te amo...
Peter pegou o maço vermelho de cigarros, fisgou um e o acendeu. Baforejou fumaça azul pelo quarto. Joca, ainda sem entender, relampejou talvez haver se esquecido de alguma data importante e esse ser o motivo do outro estar chateado com ele. Esquivou-se:
— Desculpa, eu me esqueci que dia era hoje...
— Nem precisa gastar o seu latim com isso, hoje é um dia normal, como todos os outros. Só que você não é o meu outro. Nem nunca será.
Entender o motivo pelo qual o seu amado estava assim era uma tarefa árdua. Joca não queria brigar com ele, pois não era seu jeito. Nunca havia brigado assim com Peter. Apenas alguns desentendimentos no início do relacionamento haviam sujado o manto lívio de sua vida praticamente conjugal. No entanto, agora ambos sentiam um gosto amargo do prazer, da disputa e da diferença.
Joca acendeu um cigarro – e talvez outro. Avistou os álamos, através da janela, por detrás das nuvens de algodão. Olhou para dentro da moradia. Peter, não está mais aqui. A parede branca. A caixa escura sobre o sofá. A máquina do tempo. Baforejou uma fumaça lilás em direção à parede branca e desligou a máquina do tempo. Com tudo parado, poderia fazer concernimentos mais profundos.
„Se ele não me quer por eu não ser o seu outro, como pude perder o meu tempo, minha virgindade, meus planos e o meu futuro por ele?“
 Os olhos dele escureceram e o ódio venceu o amor. Agarrou a garrafa de vinho que beberam na noite anterior, jogou-a contra a parede e enquanto o outro perguntava o que era isso, saltou do quarto pela janela. A queda demorou alguns segundos. „...estou apenas acordando, venha a mim... um-dois-três...“
Querer demais pode levar ao inimaginável. Ambos olhavam o firmamento, deitados sobre a areia. Areia fofa de praia. Um avião corta o céu. Paisagens do futuro passavam pelas cabeças de ambos.
 Planejamento e paixão. Meio-dia. Joca oferece alface e toca o rosto de Peter com os lábios. Este retribui o carinho. Tarde. Todo o desejo, todo o presente de dias de prazer rompidos em sussurros e gritos... o primeiro beijo naquela primeira parada do ônibus para Salvador. As próximas paradas e o gozo cada vez mais crescendo dentro de suas calças. Anoiteceu. Os corpos roçando debaixo da coberta enquanto o ônibus percorre a rodovia em direção norte. Dias e mais dias sobre a areia, o sal e o sol queimando os seus corpos. Madrugada. Debaixo da areia, passa o tempo na ampulheta.
 Dentro da areia, passa o tempo na ampulheta. A areia transpassa o seu tempo na ampulheta. O tempo, o tempo... Joca deixou a máquina do tempo funcionar. Não que o quisesse. Sua respiração agora já não havia.
 Joca: pedaço de retalho no chão. Joca da Silva. Joca dos Três Poderes! O absoluto, político, empreendedor de uma agência de publicidade e o santo que todos um dia queriam comer! Mesmo havendo sobrevivido à queda com algumas fraturas que não eram letais, morreu segundos após, com o golpe do corpo de seu interlocutor caindo sobre si. Os dois corpos ficaram fundidos por algumas horas no pavimento. O último ainda vegetou por uns dias no hospital, vindo a falecer devido a uma intoxicação. Peter, beberrão. Peter, chefe da empreiteira. Peter, pai de uma ou duas filhas.
 Aos funerais que se seguiram compareceu, calado e entre o choro de muitos, o terceiro personagem desta história. Este „outro“, ao qual ambos se referiram em seus questionamentos no dia em que se suicidaram, antes de retornar à sua casa, tocou a campainha da casa da família de Joca. Queria buscar a máquina do tempo.
— Oi, sou amigo de infância do Joca.
— Por favor, entre.

15 de setembro de 2011

O ÚLTIMO DIA EM CASA

Passou algum tempo olhando as estrelas. Estava num lugar escolhido, pedaço mais escuro de uma rua na direção de sua casa e não se deixaria levar pela pressa cotidiana de chegar logo em casa. Desta vez saberia ignorar a sua inquietude e chegaria sereno e, quiçá solene.

Sempre que avistava a imensidão do céu noturno se perdia no tempo, no espaço e nas coisas ao seu redor. O céu reluzente segurava estrelas brilhantes e ele a pensar novamente no seu plano, praticando-o mais uma vez na mente.

Havia um perfume desconhecido que saía de um canteiro, lembrando uma fragrância doce. Bastava.

Quando chegou em sua rua olhou novamente para o alto, à sua volta, contornando com sua cabeça o pedaço do céu que pôde avistar, querendo ver mais do céu enquanto caminhava. Chegando em casa, pegou no bolso da calça o molho de chaves e abriu a porta de entrada. Subiu os andares sem pressa.

A sensação de se haver perdido naquele espaço que habitava há alguns anos, sem saber qual direção tomar, o que fazer o angustiava. A vida era tão pouco e ele queria mais. Não era liberdade, mas o caminho até lá era a liberdade. Era estranho, afinal de contas a liberdade se mesclava com o seu desejo real, amalgando-se em uma só coisa. Ele se questionava: como fôra chegar a essa dualidade? Quem soprou em sua cabeça a idéia de querer entrar num trem ao longe?

Ao notar que suas idéias se tornavam cada vez mais complexas, turvando-se, e que isso aumentava a sua confusão, podendo chegar a acarretar mais uma de suas convulsões, fugiu delas. Achou melhor deitar-se até que essa sensação nauseante passasse.

Havia sido uma semana cansativa e era preciso acalmar-se para poder se preparar para o plano. Tomou um tranquilizante e ao chegar ao sofá, avistou um livro sobre a mesa, tomou-o em mãos e começou a ler: “A noite passada sonhei que fui a Mardeley outra vez.” Deitou o livro. Foi arrumar a sua mala. Para isso, colocou-a sobre o sofá, único móvel na casa neste instante. Foi então que ele notou estar na casa vazia. Paredes, salas e quartos vazios. Nenhuma escrivaninha. Desligou a geladeira, não havia nenhuma razão para deixá-la ligada.

“O que me fez procurar aquilo que eu não conheço acima de tudo? Onde nasceu essa procura, que autarquicamente me compele todos os meus movimentos e escolhe a direção de minha vida, como um ditador? Negação de coisas provadas no passado?” Encadeando perguntas, sentiu que a curiosidade perdia seu brilho e enfraquecia até quase desaparecer, continuando a existir como um fio, havendo-se tornardo muito fraco o eixo que o pensamento fazia de uma idéia para a próxima. Dormiu.

Caminha languidamente. Sai da casa. Foi sem responder. A casa perguntava com a voz de sua ex-mulher: aonde vais?  Fez de conta que era história conhecida, fugiu da realidade mais uma vez, pela última vez. Seu trem partiu da estação às 13:32, com cerca de uma hora de atraso: por causa de mais um suicida sobre os trilhos.

8 de setembro de 2011

O AMOR IRREVERENTE


 
 
Burdon era mago de verdade e tinha a solidão como par. E nada mais queria. Trabalhar lhe dava o dinheiro necessário para poder ser mago. Achava importante enriquecer e gostava de estar de noite na cidade. Assim como se recolhia nos bosques de dia.

Naquele dia o mago saltou do metrô e saudou: „Olá, como vai? E John? Mande recordações a ele, sim?“

A reação atônita da pequena Marjorie, a promessa de dar as lembranças, a porta do metrô fechando-se, este continuando sua rota: tudo isto aconteceu diante das reverências exageradas de Burdon, cartola na mão, na qual seu coelho aparecia.

Era dia de apresentação, ele pensou. A casa estaria lotada. O mago estudara os truques e para o caso de esses não darem certo, guardara outros números rápidos para executar com o coelho. Magia verdadeira sempre vinga, pensou.

Na vista mareada se misturavam as últimas cenas com as coisas sem importância que passavam no túnel subterrâneo do metrô. Burdon! Ela se lembrou de seu nome e acordou do sonho que sonhava acordada. Lembrou-se então dos detalhes: há um mês atrás, no pub, troca de olhares. Bebiam vinho de maçã junto aos amigos. Quando a terceira rodada de copos vinha no antebraço musculoso da garçonete, o coelho saltou da cartola de Burdon, ganhando os aplausos de todos. Os ruídos das mesas cheias cobriam suas vozes. Ninguém reparou nos dois. Mais tarde um grupo de jovens alcoolizados seria visto saudando-se com muita festa. Entre eles, Burdon e Marjorie. A risada alegre dela ecoava pelas aléias e pátios marrons. Bem-querer, e os corpos dançando à luz noturna. E hoje, o que sobrou disso tudo? Recordações a John! Mal sabe esse mago idiota que John nunca foi meu namorado! Ah Marjorie! A indecisão era maior que tudo em Burdon!

Era manhã e ele estava numa padaria a tomar o desjejum. Ela o viu se chegar como um fantasma. Vendo Marjorie passar, cumprimentou-a: „Olá? Onde vai? E John?“ Depois de um momento ela disse ser impossível falar de John, não seria sua companheira, nem nunca havia sido. Burdon pediu desculpas emudecendo. Não gostava de diálogos e deixou Marjorie. Fugiu, sem nada dizer. Era de manhã. Marjorie foi vista atrás dele. Talvez uma sombra matutina distante dele, por entre pátios universitários e árvores grandes? Ela fazia jogatinas sobre qual direção ele tomaria. Via o coelho chamando. Poemas arpejavam em melodias douradas pelas sombras e nuanças de dias de sol vividos em jardins ingleses.

De tanto brincar, numa esquina perdeu o amado. Já era tarde quando sentiu mais uma vez que o amava. O mago, invísivel, proclamou que viveria sempre à noite e desejou que Marjorie fizesse magia neste estilo longe dele. Sentenciou a si, que magia não combinava com amor e que ademais amor só atrapalha o artista que se prezava. Ela nem procurava mais e ficou no seu canto, a chorar: de ofegante a sua respiração se tornou lenta, indiferente.

Sonhos e realidade se mesclavam sem mais haver diferenças. Ela não sabia mais se era amanhecer ou fim de tarde quando o havia visto pela última vez. Não sabia onde foi que se desencontraram. Não pensava nem na razão. Ela era só vontade. Às vezes revolta.

Holofote girando na apresentação do grande mago Burdon! Entraram os passos estudados, suas mãos estavam rápidas e sagazes, seus movimentos não podiam ser desvendados. Nos primeiros números, apesar do nervosismo, tudo correu bem. Então no quinto número um pequeno imprevisto. Depois um escorregão. O mago percebeu que praticamente todos da fileira da frente o notaram e, perplexo, apelou para os “truques do coelho”. Sempre dão certo!, pensou. Mas desta vez, ó azar, qual foi a sua perplexidade, não achando o pequenino na cartola! A magia lhe disse adeus e a platéia era só vaias. Logo ouviu as queixas do chefe e se foi. Pro olho da rua, seu mago de meia-tigela!

No quarto de Marjorie pedras perfumadas, sutil iluminação new age e trilha sonora de desenhos animados. O coelho demorou a ser reconhecido, parecendo se esconder na parede de bichos de pelúcia. Por fim conseguiu chamar a atenção, mordiscando Marjorie. Saiu janela afora e ela o seguiu pelas travessas e ruas de Soldempdon, dentro do metrô e ônibus, o povo a chamando louca-olha-por-onde-anda, até chegar num bosque.

Era meio-dia e numa clareira Burdon lamentava a perda do coelho, quando a reconheceu. Ela se deitou e o arranjou sobre seu ombro. Tocaram as mãos sem apagar a luz do sol. Apenas uma cornucópia cresceu em ramos sobre suas cabeças.



 Revisão Vana Comissoli.
Todos Direitos Reservados ao Autor Udo Baingo.

30 de agosto de 2011

Contos de terror

Estou de licença médica e estou escrevendo contos de terror para relaxar. O Ogro do último post deixei de lado para acabar uma outra história antiga para adequar ao sub gênero...

20 de julho de 2011

O ogro solitário - segundo episódio


"... Escorre de mim o visgo de uma longa noite de inverno. O cheiro de urina sobe pelas paredes e se espalha. Meus cascos batem um contra o outro.  Do fundo de minha garganta faço soar uma canção antiga que lhe nina e também faz acordar."




Escrevendo o segundo episódio do "ogro solitário", um ciclo de histórias de psicoterror. O primeiro se encontra aqui.

10 de junho de 2011

quantas cores tem o arco-íris?

Na noite em que caiu a chuva torrencial um cachorro corria na rua. Ninguém sabia de quem era,
nem se ele viera dos lados da Lagoa Insólita ou da Rodovia. Uns segundos ia em direção da lagoa,
mas depois virava-se e tomava o rumo da rodovia. Uns poucos o condenaram até, mas estando eles
em direção às suas próprias casas para se salvarem do aguaréu, não passou de uma ou outra frase
sem maior importância, que o cachorro tanto mais soube ignorar, com sua língua à mostra.
Quando também todos os filhos pródigos e transeuntes sumiram, tudo foi tomado pelas águas. O
cachorro decidiu se plantar no meio da rua e aguardar o fim da torrência. Se enrolou em redor de si
e ficou intacto.

Choveu sete dias ao todo. Marquei no meu calendário na terceira noite, quando notei surpreso, que
das paredes de minha casa começavam a transparecer pingos.
Ao final das chuvas, muitos averiguavam os danos causados e poucos viram quando o cachorro
levantou a cabeça, olhou para trás, como se estivesse espreguiçando-se. Depois, primeiro à direita,
depois à esquerda, olhou para os lados. Fora valetas em ambos os lados da rua, por onde o rio da
chuva dos últimos dias correu, nada havia o que avistar. Interessava-se apenas marginalmente por
tudo, quando viram que seus pelos haviam caído durante o chuvaréu. Foi a família Piero que
chamou a atenção de todos para esse fato, fazendo a alegria das crianças. Essas começaram a passar
suas mãos na pele canina e notaram que ele estava não apenas sem pelos, mas também com um
outro tipo de pele, parecendo escamas.

Qual não foi a surpresa de todos, quando o cachorro se levantou e ao espreguiçar-se mostrou que
tinha barbatanas entre os membros e o dorso; e ao receber um prato com água, para beber ele fez
movimentos de boca como de um peixe?

***

"quantas cores tem o arco-íris?" foi escrito em Jena, Alemanha, aos 5 de abril de 2008 e publicado anteriormente no Blog "Udo na Alemanha" deste mesmo Blogspot, assim como também no meu perfil do Orkut entre junho e agosto do mesmo ano. O texto final se encontra hoje no presente blog Umbigo de Pelúcia, publicado em dezembro de 2008 e se chama "O Peixe que uivava".