8 de dezembro de 2008

O PEIXE QUE UIVAVA








            Ele foi visto pela primeira vez na noite em que a chuva torrencial começou. Ninguém sabia de quem era, nem se ele havia vindo dos lados da lagoa insólita ou da rodovia da mesmice. Ora ia em direção da lagoa, ora virava-se e tomava o rumo oposto, para a rodovia.
A reação ao vira-lata era nula, pois se esperava que ele um dia seguisse o rumo para um dos dois lados e acabasse tal qual um cachorro como muitos outros da lagoa ou um cadáver para a fome dos urubus. Por ele continuar ali na cidade, uns poucos até o condenaram. Mas estando todos no rumo que a vida toma, nos afazeres diários ou em direção de suas casas, chegando a algum encontro importante não-se-sabe-porque, as condenações não passaram de uma ou outra frase sem maior importância. Vira-lata é mais coisa do que ser vivo. De modo que, ignorado, soube ignorar, mostrando sua língua salivante e um tanto suja de terra ferruginosa
Quando o aguaréu não deu mais chances e todos os transeuntes sumiram, a fim de se salvarem, tudo ficou ainda mais fácil para o cachorro. Ele decidiu se plantar no meio da rua e aguardar o fim da torrente. Enrolou-se em torno de si e ficou imóvel.
Choveu sete anos ao todo. Comecei a marcar no meu calendário quando notei, que das paredes de casa começaram a aparecer pingos condensados. E os dias se foram, lentos, mas convictos.
Ao final das chuvas, pouco tempo ficou para tristes pensamentos. Pouco tempo para o luxo de pensar em si. Todos averiguavam os danos causados. As casas abandonadas tinham antigamente armários, janelas, persianas, agora tinham peixes mortos, cadáveres de marrecos e garças. Onde antes um tapete simples, agora lama e terra.
E poucos viram o cachorro levantar a cabeça, olhar para trás, como a espreguiçar-se. Depois,  à direita e à esquerda, observou. Havia valetas em ambos os lados da rua, por onde o rio de água turva correu carcomendo o pavimento, e desta forma protegendo o cachorro da enchente. Ali, no meio da cidade e no centro da rua, ele ficara intacto. À margem de tudo, pois ninguém mais o notava, tomados pelos cuidados com seus pertences deixados nas casas ou o que a chuva abandonou para contar história.
Foi a família Piero, do circo que pegara fogo no verão antes das chuvas, que primeiro se atentou ao fato dos pelos do cachorro terem caído durante o chuvaréu. As crianças, cheias da tragédia dos adultos, prontamente começaram a passar suas mãos na pele canina, brincando com ele. Ele não apenas estava sem pelos, mas também com outro tipo de pele. Eram escamas.
Atrás das crianças, alguns adultos viram o cachorro. Para a surpresa de todos, quando ele se levantou e se espreguiçou, mostraram-se barbatanas entre os membros e o dorso; e ao receber um prato com água, para beber, ele fez movimentos de boca como um peixe e pulou para dentro.
Quando as forças do exército vieram com mantimentos e foram consertar provisoriamente os pavimentos da estrada, ficaram sabendo da novidade. Acabaram achando-o em uma apresentação de circo: "o peixe que sabe uivar". Ficou claro que o peixe era um fenômeno biológico. Esse peixe seria prato cheio, pensavam os cientistas, e todos já se perguntavam quando iriam capturá-lo, para fazerem experimentos, gravarem o DNA e todas essas coisas. 
Foi Tchuí Piero, o caçula do circo, quem, cheio de medo, largou por fim o peixe no rio: melhor entregá-lo à natureza, do que às revistas de biologia e às catacumbas de espécies, pensou. A partir deste dia não se viu mais o cachorro-peixe. Tchuí o apelidara de Taínha: Taínha Piero, o Peixe que Uivava. Até que um dia um publicitário o achou no Orkut.

Revisão Vana Comissoli
Todos Direitos Reservados pelo Autor, Udo Baingo.

2 de dezembro de 2008

BIS

Lembro-me de um amigo secreto. Na verdade, do meu único amigo secreto em toda minha vida. Sim, talvez foi o primeiro e o último.

Estava na segunda série do primário e tinha paixão por uma loirinha chamada Carla. Ela era minha "namorada" secreta. Ninguém sabia. E se sabia, também não é de meu conhecimento hoje, 28 anos mais tarde.

Era hora de cada um tirar o seu amigo secreto. A professora, com jeitinho português, escreveu em diversos bilhetinhos o nome de cada um e espalhou os pedacinhos de papel fechados sobre a mesa. Ela chamava um por um em ordem alfabética. Carla tirou o nome de seu amigo secreto. Pediu para tirar de novo, pensando poder tirar sua amiga. A professora disse que não era assim que funcionava. Carla olhou a mesa e escolheu um papelzinho, fosse o de sua amiga? Leu e fez cara feia e balançou o corpo. Não gostou e pediu para tirar outro. A professora - acho que se chamava Lucélia ou Lúcia - falou que não era assim, e que ela se comportasse. Carla jogou o papelzinho no lixo, ralhando como uma arara. Quando perguntaram quem era seu amigo secreto, ela apontou com o dedo para mim.

A chamada da professora passou o E,F, G ... chegou no T e o U veio direto pra mim, minha vez de tirar o bilhetinho. Havia vários bilhetinhos ainda sobre a mesa... por que isso? Não foi alfabética a ordem? Ou tinham juntado diversas classes? Timidamente puxei um bilhete e o entreguei para a professora. Ela sorriu e me mostrou o nome. CARLA. Ela havia me tirado e agora eu a tirei. Fiquei sem entender direito.

Dia da entrega de presentes. Havia sido um ano diferente para mim. Tudo novo: cidade nova, novos amigos... e com sete anos a gente espera ser aceito por tudo e todos. Nem sempre dei certo com meu sotaque de gaúcho e meu jeito enfezado. Amigos tinha. Mas queria muito mais uma namorada.

Desde o início queria uma namorada. Quando havia chegado em São Paulo, fiquei morando na Avenida Morumbi, logo defronte a um semáforo, na casa de uma tia. Os carros arrancavam e faziam um barulhão. Tinha uma vizinha com uns anos a mais que eu. Era linda. Coisinha branquinha com olhinhos cor de qualquer coisa boa. Eram castanhos. Olhinhos que ficavam bem naquela sombra de árvore do pátio. Um dia ela me perguntou do outro lado do muro como se chamava algo em alemão. Eu perguntei o que ela queria saber, não me vinha nenhuma palavra assim, de sopetão. Ela pediu: hm... fogão! Eu havia me esquecido de meu vocabulário alemão, desci da cadeira e fui para casa perguntar pra minha mãe. OFEN? Notei que sabia a palavra, mas que de tanto querer impressionar, tinha me esquecido...

Tinham me proibido de subir na escada ou na cadeira: sujava a cadeira e a escada era perigosa, podia cair e quebrar a cabeça. Pulei para o alto algumas vezes para verificar se ela estava do outro lado do muro. Não estava. Voltei para casa e pedi se podia usar o telefone. Pra quê, quiseram saber. Quero ligar pra vizinha. O quê? Não pode, disse minha mãe. A tia interveniu dizendo que podia e já foi me dando o número. E ordenou que eu falasse "você" e deixasse o "tu" de lado. Disquei o número, me achando o máximo. Ela atendeu, acho que se achou o máximo também, "o sobrinho da vizinha está ligando pra mim". Fiquei misturando tu e você a torto e a direito. Já falava uma meia hora quando meu primo, impaciente, apareceu e brincou, se eu já tinha marcado um encontro, pois precisava usar o telefone - ou ia ficar caro. Final de conversa: não marquei encontro, nem vi mais os olhos da vizinha. A mudança tinha enfim chegado e nós íamos poder entrar na casa nova. E lá não tinha telefone. Ah sim. Eu queria ter uma namorada. Uma que fosse assim, minha vizinha, bonitinha, pra ficar ligando e falando. Uma pra fazer de conta que eu sabia falar alemão...

Então era dia da entrega de presentes. Fim de ano, fim daquele mesmo ano. Disse a meu pai que precisava ser um presente, não disse o preço, só falei que era pra uma guria. Menina. Mädchen. Lá foi ele todo alegre comprar presente. "Ele tá podendo", pensei, quando vi a boneca. Comprou uma bonequinha bonitinha mesmo. Até mais bonita do que aquela que deu pra Elaine. Elaine, minha prima de segundo grau, que antes disso tinha como boneca um sabugo de milho com pano de saco comprido, para fazer as vezes de saia. Ele adorava dar boneca para minhas amigas. E eu até achava chato.

O dia de entrega dos presentes, sim. Eu fiquei no meu canto, a caixa da boneca escondida num saco. Durante toda a preparação, não tinha deixado nenhum recado para meu amigo secreto. Brincadeira besta, ficar deixando recado pra amigo secreto... Já que ela não gostava de mim, não precisava brincar nem nada. Ia contar o que? Que meu pai adorava dar bonequinha? Perguntar se ela sabia que em outros lugares se brincava com sabugo de milho? Sua riquinha, você sabia como é cacho de uva, como é tirar leite de vaca e como um chiqueiro fede? Sabe como é ter saudades? Mas ela era burguesa? Ela era mais rica que a mocinha negra que tinha um barrigão, barriga d'água e que tinha medo de um cara tão branco quanto eu. Carla devia ter dinheiro, sua mãe a levava de carro e ela era loira. Ah, ela comia lanche, a mãe dela dava dinheiro pra um lanche e um refri. Gente loira geralmente tem dinheiro. Não é que nem esse pessoal, que não tem dinheiro para o café da manhã, vêm. Não que eu jantasse, pois em casa sempre tivemos lanche de noite, às 6 da tarde e depois mais nada.

Carla veio com uma amiga. Ela ficara sabendo que eu era seu amigo. Secreto agora já não era mais. Veio em minha direção e me levantei. Afinal, os pais já vinham buscar seus filhos e a brincadeira do amigo secreto estava acabando. A fantasia caíra. Bastava ficar ali parado. Tinha de entregar o presente. Quase que me esquecia! Tirei a caixa de dentro da mesa e a entreguei dizendo "taí". A amiga dela, uma que parecia com a Lady Diana e que eu também achava linda, mas muito produzida, adorou e soltou um gritinho. Carla não entendeu de onde surgira aquela boneca e me entregou algo, seu presente.

Dezembro chove às vezes um pouco frio em São Paulo. Principalmente quando não se toma café da manhã, nem se prova nada da festinha de despedida de ano. Meu pai me buscou e quis saber como foi, o que eu ganhei. Mostrei a caixa de bis. Ele perguntou se podia pegar um. Puxei a caixinha e fiz que não e perguntei se podia comer antes do almoço. Ele falou que eu podia fazer o que eu queria e ligou o motor do Passat. Dei uma mordida.

25 de novembro de 2008

No Hai Long


No restaurante HAI LONG, ali na Schlossgasse, continuação da Oberlauengasse, à espera do prato escolhido a dedo por ser barato, de frango e não ser sopa (era massa com peito de frango e broto de soja e custou 3 euros) presenciei uma cena e me veio um sentimento forte de querer ser cronista. E uma sensação de não estar presenciando algo que fosse acontecer mais vezes. Por isso, fiquei tranquilo, imóvel, e fiquei assistindo. Assim posso me referir a esse acontecimento de hoje, pois estava com o melhor lugar para isso: o camarote.
Estava na minha atual normal (!) situação (!), mirando para o lado de fora através do vidro na fachada do local citado acima, quando reparo num casal, que parecia muito normal. Ele, barba, jeito de turíngio, loiro com certa tendência para castanho dourado, aquele tom de floresta. Ela, marca registrada: olhos um pouco saltados, rosto branco de frio. Ambos agasalhados para o inverno que chegou cedo.
Parece-me que eles param de falar algo bastante diário, como que se preparando para se dizerem um adeus bastante trivial, quando ele começa a falar e eu, na minha posição cinematográfica, noto que ela está esbugalhando mais seus olhos.
Pelo restaurante o cheiro de curry tailandês se proliferou quando dois asiáticos ao meu lado receberam os seus pratos. Numa nuvem de leite de coco, presenciei a conversa tomar um rumo bastante sentimental. Ela fica entre decepcionada e sentimental. Não parece ser alegria. O tempo mórbido que tem feito e esse par ainda me vem com tristezas pra rua, ainda mais fazendo apresentação pra "moizinho aqui"?? O que terá ele dito? Que sairá novamente de viagem e ficará durante o Natal no trabalho? Que irá pela quinta vez consecutiva para a casa de sua mãe, que mora sozinha desde o falecimento do seu pai, idem no Natal? O asiático ao meu lado coloca uma colher de pimenta inteira sobre a carne, pato. O outro asiático, alemanizado, se ri e sente náuseas só de ver a pimenta.
O intimismo da conversa do par parece dar espaço para uma sessão-carinho: eles se encostam os seus rostos um no outro. Eu penso: o que, ele está grávido? Foi isso que ele falou? O carinho parece fazer bem e doer ao mesmo tempo. Talvez uma negativa: a gravidez não deu certo novamente. Mas por que ele deu o recado? E aliás, não é a mulher que fica sabendo isso primeiro? Que diabos ele disse pra ela? Que ele perdeu a senha do cofre de casa, onde se encontra todas as suas jóias? Reparo no jeito como se acarinham. Parecem um tanto tortos, desacostumados. Serão talvez irmãos ou primos distantes? Amantes que nunca dormiram juntos?
Duas moças abrem a porta e nisto tento ouvir as vozes do par. O frio entra e fico tentando escutar algo. Ouço saudações de clientes saindo e de outros que vão entrando. Não chega a mim nenhum tom dos dois lá fora. A porta se fecha e joga uma brisa gelada em mim.
O par parou de se tocar as faces. Não reparo nas mãos, talvez ainda estejam se tocando os dedos, mas nada que fosse importante. Agora é a vezes dos olhos. Que expressão! O rosto da mulher mostra algum tipo de tristeza e um ar de desmerecimento. Ele, por sua vez, que rosto! Pensava primeiro ter dominado a situação. Mas uma pontinha sua parece dizer: ainda não foi tudo, ainda deixo algo por contar. Fico aguardando.
Mas de repente, ela se despede, como que para aliviá-lo. Quer ajudar ele a sair dessa meia-mentira ou meia-verdade, deixando-o sozinho. Na verdade ela se cansou de ver esse cara se sentindo mal, mesmo que a tortura só tivesse durado uns poucos segundos. Ele se despede um micro-segundo depois de ela ensaiar saída. Quando ele diz adeus ou algo que o valha, ela olha para trás, um rosto de quem se sente mal pelo que ouviu, como alguém que gostaria de xingar e não xingou, por estar na rua e sentir vergonha - testa frisante. Como um garçom que se esforçou, mas não recebeu gorjeta, ela sai a pé.
Ele fica ali, do lado de sua bicicleta, pensando no que aconteceu. Olha para dentro do HAI LONG e cá estou. Eu o fito na mesma posição na qual eu presenciei toda a cena: com os dois indicadores levantados sobre os lábios. Ele me vê e se ri um pouco sem jeito. Eu rio entre dedos e dentes. E vejo ele ir.

20 de maio de 2008

Indisplicência


De espacinho a espacinho ele foi se aproximando. Passou Campos olhando paisagem, São Paulo na conversa, passou Registro comendo bife a cavalo com ela, depois Curitiba, e assim vai, direção sul... ele medindo em centímetros a distância entre os seus corpos, no escuro. Numa curva investe demais. Ainda no Paraná o ônibus estacionou entre araucárias, a noite era clara e estrelas cintilavam. Acordou e saiu para o frio, sozinho, trouxe chocolate. No escuro do ônibus, espelho na outra mão, ela passava batom e seu corpo estava quente e sonâmbulo.

30 de abril de 2008

O MAESTRO E O SEGREDO DA PIRÂMIDE parte 3

III
A explicação

Ainda não pensava no motivo de não ficar paralisado como o resto da turma. As aulas continuavam e, com elas, o zunido. Os professores passavam a matéria e suas palavras encobriam as sensações de meus colegas. A estranha normalidade era sórdida. O tímpano de orquestra iniciava a sua ronda, os sons de cello atravessavam obliquamente as salas e os corpos se faziam receptivos ao conhecimento. Em nossos encontros de recreio, conversavam normalmente sobre temas atuais.

O mais estranho de tudo era a normalidade. Todos transpiravam saúde, alegria e sabedoria. O conhecimento se expandia e as notas melhoravam. Depois de poucas semanas o Colégio vencia gincanas de conhecimento e se destacava em feiras de ciências.

Eu continuava sem saber como o zumbido não fazia efeito em mim. Depois que notei que minhas notas pioravam porque o nível dos outros melhorara consideravelmente, resolvi manter segredo para minha prima. Poderia ser que, se começasse a contar sobre os sons da aula, ela ainda me proibisse a música.

Aliás, foi numa aula com Zuya que entendi como fugi da hipnose. Estávamos tocando um dueto quando perguntei:
- É possível ignorar sons?
- Claro, lembra o jingle que você não ouviu esses dias?
- Hm. Lembro.
- Você filtrou ele dentro da sua mente. É como alguém selecionar o que deseja ouvir. Por exemplo, toca a escala em dó.
Eu arranquei no solo de guitarra. Ele tocou ao mesmo tempo outra coisa diferente.
- Notou que você precisou se concentrar no som de sua própria escala para poder tocá-la?
Eu levantei a cabeça.
- Da mesma forma, você ignorou o que eu toquei, porque escolheu ouvir o que você estava tocando.

***

O rumo diferente

Para não cortarem minhas aulas de música, decidi encontrar a fonte do som da hipnose. Prestei atenção o mais que pude no som. Foi quando vi diversos tubos de vidro pelos quais o som passava. Eu os transgredia como espírito ultrapassando paredes, até chegar num lugar escuro. Só a luz de uma lâmpada fraca iluminava o salão enorme onde me encontrava. Pelo ar gelado e obscuro vinha o conhecimento em vácuo. Quando acordei, vi que era manhã de um dia abafado e quente.

Ao fim das aulas, me escondi no banheiro. À procura de pistas comecei pelo andar superior do colégio. Passei abaixado pela secretaria e subi as escadas. De uma porta no meio do corredor escutei chaves. Abaixei-me. Ouvi a porta ser fechada e passos rápidos em minha direção. Me adiantei aos passos e, de cócoras, corri escada abaixo. No corredor do andar de baixo me esperaria a secretária, quando senti aquela mão forte em meu ombro. Sem nenhum som, me esquivei e vi Artur, me chamando! Aliviado, subi com ele a escada, até a porta da qual havia ouvido as chaves, que Artur conseguira de um amigo seu da fanfarra. Era o salão de instrumentos da fanfarra que ele me apresentou.

Nunca havia estado ali. Em panos, cofres e malas de diversos tamanhos todos os instrumentos da fanfarra dormiam o sono do fim de tarde, espalhados ao longo da sala comprida, de paredes brancas, afim de serem usados mais tarde. Uma cortina branca separava outra sala mais ao fundo. Abri-a e surpreso avistei, ajuntados ao fundo da sala, um par de tímpanos. Estes instrumentos tão pouco usados em orquestras não-sinfônicas me lembravam o toque de entrada do zunido. Meu coração palpitou. Artur, sem mais, fechou a porta e desligou a luz.

Alguns segundos se passaram até que a porta da sala se abriu e o diretor da fanfarra entrou. Queria buscar alguns instrumentos e foi em direção à cortina atrás da qual eu e Artur nos escondíamos. Os panos da cortina se abriram num rasgo e o seu rosto pálido procurou por algo.
Escondidos debaixo de lençóis tentamos conter nossas respirações, vindo apenas a agravar mais. Arfantes, nossos peitos suplicavam por mais ar. O diretor parecia não haver encontrado o que procurava e saiu sem fechar a porta. Logo depois entraram na sala os integrantes da fanfarra. Foram recolhendo cornetas, caixas, claretins, pratos e surdos. Pudemos sair sem que ninguém nos notasse.

Depois daquele dia quis logo entender o motivo de os tímpanos estarem escondidos e tentei falar com o diretor da fanfarra. Depois de diversas tentativas, nos encontramos. O diretor desconhecia tais instrumentos e, pálido, me perguntou se queria participar da fanfarra. Agradeci, não aceitei o convite, não tinha tempo.

Por outro lado, Artur entrara na fanfarra. Não havia mais nada que estranhar a esta altura do campeonato. Porém, quando ele sumiu, decidi aprender a tocar caixa, para saber o que se escondia por trás da fanfarra.

O MAESTRO E O SEGREDO DA PIRÂMIDE parte 2


II
Estranhos efeitos

Um dia depois a aula estava por começar e as conversas não haviam cessado ainda quando um grande zunido soou. Impossível prestar atenção ao que falavam. Tampouco se ouviam as palavras do professor. Era um som monótono de alta frequência. A este foram-se adicionando outros timbres. Com a exata duração de uma aula, o "concerto" pareceu acompanhar as palavras dos mestres. Olhei de viés para os outros. Ninguém conseguia se mover. De olhos fixos, pareciam imaginar a presença de alguém ao longe. Da pirâmide o som transgredia os seus crânios.

Esta aula passou como uma tortura para mim, sem que eu pudesse entender o que acontecia. Ninguém pareceu notar o que havia acontecido quando o professor saiu da sala e o som se extinguiu. A essa sessão seguiram outras, até o final do dia, quando todos se encontraram na saída. O pequeno bate-papo sobre um programa de tevê, a despedida. Nada anormal, tudo acontecia como de costume: falaram sobre tudo, mas ninguém comentou o zunido das salas. Pediam-me para não falarmos mais sobre a aula. Decidi ir para casa.

Um bilhete de minha prima dizia: "Tudo pronto na geladeira. Volto à noite. Qualquer coisa, me chama pelo celular. Prima Jucena." Cheguei em casa e aprontei a comida no micro-ondas. Eu não sabia o que sentir e estranhei eu me sentir sozinho. Ninguém além de mim presenciou o que acontecera na escola e em casa, ninguém para falar a respeito.

Depois do almoço entrei no meu quarto e tratei de achar alguma explicação para o zumbido. Meu professor de música, o Mestre Zuya, chegou para minha hora de música às cinco da tarde.

O rádio estava ligado quando Zuya chegou. Prestei atenção a um jingle que não conhecia.
- Legal esse jingle novo, afirmei.
- Você tá louco? Já toca faz mais que um ano, respondeu Zuya.
- Estranho... nunca tinha ouvido.

O MAESTRO E O SEGREDO DA PIRÂMIDE parte I


I
Um zunido estranho


Vou de manhã à escola, mas meu sonho verdadeiro é ser maestro. Por isso todas tardes de segunda e quinta tenho aula de música. Nos outros dias, trabalho como ajudante no escritório do meu tio. Carrego pacotes e dou recados. É um trabalho normal, que faço para poder pagar o professor de música, o Zuya. Ele gosta da Janice. Essa é minha prima. Moro na casa dela e nos damos super-bem.

Crianças corriam com mochilas cheias. Meus colegas vinham falando e me juntei a eles. Eram quase 7:30 da manhã e nossas aulas começariam logo. Em minha classe, a oitava série, éramos garotos e garotas normais, como em qualquer escola. Por exemplo, o Ono. Como bom nissei, ele é fascinado por ciências exatas, em particular Matemática. Sabe calcular rapidamente. Mantém-se calado durante longo tempo, até quando surge algum exercício de lógica, problema técnico ou algo parecido. Aí ele se concentra e logo apresenta a solução. Preto é um rapaz grande. Ele é o mais veloz da nossa escola. Me derrotou na corrida de 100 m e depois venceu contra garotos das classes mais avançadas. Representou a escola numa competição de escolas da nossa cidade. Seu sonho é ser jornalista. Artur é eloquente e as meninas pagam o maior pau pra ele. Alguns o acham orgulhoso demais e tem gente que não vai com a sua cara. Mas a maioria gosta dele. O franzino Pinguinho é bom no que? Bem, ele é um amante da Geografia. Achamos chatos seus papos sobre ecologia. No começo do ano conversava tanto com garotas, que começou a pegar mal.

A quadra do colégio é onde nos encontramos para conversar nas pausas. Fica na parte de baixo e é ligada com a entrada por um corredor lateral e por uma escadaria.

Um vento úmido de março passava quando descíamos por essa escada para o pátio. Nossas vozes se juntaram ao barulho que vinha de lá. Se alguém fosse prestar atenção ao todo, não entenderia nada, de tão misturadas estavam as vozes. Já embaixo, sobre o piso do pátio, escutei meus colegas falarem sobre um programa de tevê. Do outro lado, falavam sobre meninas da nossa classe. A gorda e a Cynthia: paquera de muitos. Ouvia todas as conversas só de olhar e logo já estava cheio de ouvir tanta bobeira. Logo mais o portão na entrada se fechou e as salas de aula no térreo e no andar superior foram se enchendo de alunos.

Ainda antes da aula começar, eu e meu colegas estávamos juntos quando apareceu um estranho. Cabelos e barba escuros, fisionomia sem particularidades, um pouco magro. Ninguém dava importância para ele, pois lembrava outros funcionários do Colégio.

Logo trouxe uma escada, a qual postou com cuidado defronte ao quadro. Em seguida surgiu com uma tábua. Preto e Artur começaram a se interessar e subiram em cadeiras para ver o que fazia. Fixou uma tábua de madeira na parede. Preto falou algo, mas ninguém acreditou. Artur disse que era um prato e teve gente que já foi espalhando isso quando alguns alunos desmentiram dizendo: sobre a tábua havia uma pirâmide de madeira.

Aproveitamos a pausa do recreio para visitar outras classes e encontramos em várias salas os mesmos elementos geométricos do mesmo feitio. No decorrer do mesmo dia instalaram outras peças em todos os recintos do Colégio. De agora em diante estaríamos sob o signo da pirâmide.

O AMOR IRREVERENTE

dedicado a Marcus Salgado

O mago saltou do metrô e saudou: „Olá, como vai? E John? Mande recordações a ele, sim?“

A reação atônita da pequena Marjorie, a promessa de dar as lembranças, a porta do metrô fechando-se, este continuando sua rota: tudo isto aconteceu diante das reverências exageradas de Burdon, cartola na mão, as orelhas de seu coelho aparecendo.

Burdon! No vagão ela acordou do sonho acordado, soluçando, os olhos úmidos. Era novamente tarde demais. Na vista mareada se misturavam as últimas cenas com as coisas sem importância que passam no túnel subterrâneo.

Há um mês atrás, no pub, Burdon se mostrara tão interessado. Bebiam vinho de maçã junto de amigos. Quando a terceira rodada de copos vinha no antebraço musculoso da garçonete, o coelho saltou da cartola de Burdon, ganhando os aplausos de todas as mesas. Os ruídos das mesas cheias cobriam as suas vozes. Assim, ninguém reparou nos dois. Mais tarde um grupo de jovens alcoolizados seria visto saudando-se com reverências. Entre eles, Burdon e Marjorie. A risada alegre dela ecoava pelas aléias e pátios marrons.

Numa manhã estava ele numa padaria a tomar o desjejum. Vendo Marjorie passar, cumprimentou-a: „Olá? Onde vai? E John?“ Depois de um momento ela diria não ser possível falar de John, pois ela não seria sua companheira, nem nunca havia sido. Burdon pediu desculpas emudecendo. Não gostava de diálogos e sentiu vontade de deixar Marjorie. Enfim fugiu, sem nada dizer.

Ao amanhecer Marjorie foi vista atrás dele. Talvez apenas uma sombra matutina distante dele, por entre pátios universitários e árvores grandes, ela fazia jogatinas sobre qual direção ele tomaria. Poemas arpejavam em melodias douradas pelas sombras e nuanças de dias de sol vividos em jardins ingleses.

E, de tanto brincar, numa esquina perdeu o amado. Lógico que era tarde quando, só, sentiu que o amava. O mago, invísivel, proclamou que viveria sempre à noite e que Marjorie fizesse magia neste estilo longe dele, que magia não combinava com amor. E que ademais amor só atrapalhava o artista que se prezasse. Ela já nem procuraria mais e ficaria no seu canto, a chorar: por fim de ofegante a sua respiração se tornaria lenta, indiferente.

Assim o foi até quando o coelho de Burdon decidiu intervir. Era noite de apresentação e o mago ficou perplexo, não o achando na cartola. Então a magia lhe disse adeus e ele ouviu as queixas e vaias do público. Pro olho da rua, seu mago de meia-tigela.

Era manhã. No quarto de Marjorie pedras perfumadas, new age e trilha sonora de desenhos animados estilo evergreen, calmos. O coelho demorou a ser reconhecido, parecendo se esconder entre os bichos de pelúcia. Conseguiu chamar a atenção de Marjorie mordiscando-a. Saiu janela afora e ela o seguiu pelas travessas e ruas de Soldempdon, dentro do metrô e ônibus, o povo a chamando louca-olha-por-onde-anda, até chegar em um bosque.

Era meio-dia e numa clareira Burdon lamentava a perda do coelho, quando a reconheceu. Ela se deitou e arranjou sobre seu ombro. O toque das suas mãos nem apagou a luz do sol. Só uma cornucópia cresceu de suas cabeças.

29 de abril de 2008

SONHOS DE PARACELSA

Como um louco Celso se preparara para ir naquela noite para o lar de Paracelsa: saíra de uma festa comigo e com o amigo Buda, para irmos para lá juntos. Ali havia paraguaias trajadas com penas de pássaros extintos a servir frutas que ninguém sabia de onde eram.

Foi de se estranhar a vez em que perguntamos como conseguiam aquelas penas e frutas diferentes. Respondiam que as adquiriam de sonhos que outras pessoas não puderam ter. Iriam de tempos em tempos à caça de sonhos de pessoas que não conseguiam dormir. Trariam de lá gostos nunca antes provados e sensações nunca alcançadas.

Achamos se tratar de conversa de mulher e fizemos muitas brincadeiras. Buda mandou a sua paraguaia entrar no seu armário, para depois sair e dizer que havia escapado de um de seus sonhos. Depois a atacou beijando, esfregando sua barba e a mordendo. Eu mesmo me joguei debaixo da rede e encoxando-a, ralhei com Paracelsa: estou pesado, nunca mais quero sonhar com jacas! Sobre a rede, em sua pele de tapir ela me repreendeu com seu olhar.

Muitas vezes, pratiquei sexo bruto com uma delas, mas nada se comparava aos estados de consciência dos sonhos dessas índias. De primeira pensava não ser possível. Esse tipo de realidade existe? Durante várias vezes porém esas sensações se tornaram reais. Durante algum tempo já guardava o segredo e tinha medo até. Foi quando Celso me afirmou estar sentindo coisas que não imaginara poder sentir. Abrimos então o jogo e continuamos indo a Paracelsa. Se não mata, engorda.

Paracelsa mesma, por sua vez, não participava dessas caças, nem comentava nada. Deixava um tom de mistério pairando sobre a questão. Para nós era indiferente. Por que pensar nisso, uma vez que ela retinha em seu sexo uma flor-ferida sempre exposta, cujo toque metia a gente doida? Nos empapava com sua saliva quente e ficávamos dentro de uma bolha, como numa ilusão em que cada um ficava ao lado de si próprio, formando uma fileira longa de eus de mundos paralelos.

Celso Pinto, que costumava ter um sono muito tranquilo, teve na noite anterior sonhos estranhos e dormira muito mal. Desde a manhãzinha então, ficou imaginando como seria essa noite no lupanar. Depois que chegamos, escolheu a dona e ficou conversando com ela até fecharem os olhos e dormirem, quase no fim da madrugada. Antes de clarear porém, acordou com tanto tesão, que agarrando-a por trás sem avisar a dominou, em sexo fogoso e frenético, acordando a todos os outros aposentos e gerando uma corrente de anseios interminável na oca inteira. De olhos fechados todos nos entregamos aos sons de corpos se amando divinamente, em fortes tremores de gozo. Por toda a oca sentíamos o frenesi endoidecedor.

Foi quando abri os olhos. A relva quente e espessa grudava em meu corpo. Um tapir eloquente me olhava reticente, chamando-me. Olhei para a picada até ele, na beira da selva. Olhei para meus pés: detalhe, eram patas. As aves gritam, a selva balança, o caçador está perto. Vamos!, gritou a natureza. Corri instantaneamente na direção do tapir. Mas antes de chegar à mata, no fim do corredor da picada, uma flecha me atingiu. Desmaiei.

Acordei. As índias sorriam e faziam festa ao me ver anestesiado no chão da oca. Queria, mas não conseguia sentir nada. A flecha tinha sido envenenada sabiamente: "a dosagem certa faz o veneno", dizia sempre Paracelsa. Olhei ao redor. Buda e Celso também estavam presentes. Éramos tapires e seríamos oferendados à deusa, a ela: à ferida de Paracelsa.

24 de abril de 2008

CUIDADO AO COMER PEIXE

Você já conhece nosso paraíso? Bem, temos um laguinho artificial aqui no jardim. Vamos lá ver.

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Pois bem, aqui está. O que acha? Logo no primeiro dia o habitou um besouro que sabe nadar. Muito feliz fui cumprimentar o primeiro habitante. Coloquei minha mão na água ainda clara para saudar o pequeno ser vivo. Ele me mordeu e passei alguns dias mal, de febre na cama. Mas você me conhece, sou forte. Para mim, isso já passou.
Depois vieram insetos, libélulas, vermes, pequenos crustáceos e, entre outros mais, vários peixes e duas rãs. Ficamos olhando como os bichos se sentiam e tudo estava muito bem. É verdade, os sapos não gostavam muito um do outro. Ficavam de picuinha entre si e era só um chegar muito perto do outro, este soltava um "Crep" sinalizando perigo. Mas, no mais, a paz reinava e todos os bichos se multiplicavam no laguinho. Claro, todos menos os sapos.

A vida quis, porém, através da lei de Newton... ops, não, essa é a lei que move as maçãs todas das macieiras para baixo... Sim!, a lei do Darwin quis que um dos sapos fosse desaparecer. E tudo por causa de sua gula. Explico.

O que acontece quando está anoitecendo? Ficamos vendo o laguinho. Ô coisa boa de ficar olhando pra se findar um dia na paz! O expediente acabou e o crepúsculo nos apresenta um grande espetáculo da natureza! O interessante é que a essa hora o laguinho começa a ficar mais movimentado: uns insetos precisam descer para abastecer ou desovar e prontamente uns peixes pulam d'água para receber a hóstia de Deus, em forma de mosquitinho. Mas nem todo peixe que pula para fora da água acha o caminho de volta. Ou pelo menos um não achou.

O fato é que certos peixes não sabem que do lado de cá as leis físicas são outras que dentro d'água. Daí calculam errado o impulso para o ar e o vôo acaba mais longo que planejado. Caem sobre uma folha de uma dessas Vitórias-régias. Negócio louco! O peixe fica ali se abatendo sobre a folha, até alcançar novamente o seu lar, a água, são e salvo!

As duas rãs ficavam como que cada qual na sua, sempre se estranhando. Era uma chegar perto da outra: glup, pletch, crep e pletch. Às vezes pulavam para longe quando um peixe chegava muito perto deles: outras horas as rãs ficavam paradas, e de repente pulavam sobre um inseto. Um espetáculo da natureza!

Uma das rãs, a maior, dotada de suculentas pernas, estava assistindo um peixe sobre a vitória-régia. Meu amigo e eu tomávamos uma cerveja e ele me cutucou pra avisar que apostava que a rã iria pular. Quando eu já ia apostar o dobro, a rã pulou pra cima do peixe, com a boca aberta. Ficamos os dois de olhos abertos, vendo o que acontecia em nossa frente, ali no laguinho: com uma de suas patas a rã empurrava o rabo do peixe pra dentro, parecia que o pobre ser aquático ainda vibrava dentro de sua boca! A rã o foi engolindo conforme ele se movia. O que parecia ser um problema, porém, era o tamanho do peixe. O seu comprimento era mais ou menos igual ou até um pouco superior ao da rã. Esta ficou onde estava algum tempo e, depois que sentiu que o peixe havia rebatido no fígado, deu umas braçadas para a margem. Ficou lá, na borda da água, fazendo as vezes de paisagem.

Desde esse dia, que foi há quase mais que uma meia lua inteira, nunca mais avistamos essa rã. Dizem as más línguas que se foi para outros laguinhos, onde anfíbios, com auréolas sobre a cabeça, cantam gospel.

14 de abril de 2008

O CAMINHO INTERROMPIDO DE LINARDO, SUA CARTA E SUA DESTINATÁRIA

O CAMINHO INTERROMPIDO DE LINARDO, SUA CARTA E SUA DESTINATÁRIA
I
Sonhos em uma cidade fantástica
 
“Quando a noite empardece de verdade, vou e me mando pelo sonho. Navego... Se existe algo que eu gosto nessa vida é sonhar, porque o sonho é ímpeto até o âmago. Ímpeto, ímpeto, ímpeto!”
(Trecho de uma carta achada em uma estação de trem.)

Algo me ofusca e num abrir e fechar de olhos sou pássaro: copas de árvores, claraboias, casas, prédios, viadutos estão lá embaixo. De repente mergulho e estou na cidade. Flutuo por uma avenida aquática. Estou no subterrâneo da cidade e passo por  viadutos enormes. Não sei quem sou. Olho para meus pés. Pés? Não sou mais ave, nem sou peixe. Sou bípede. Vejo a escadaria de uma casa simplória. Subo até ingressar nela. Um bar, sebo ou igreja?
Ouço sons de cânticos. Um padre quer informar o preço do dicionário de sonhos ou qualquer obra de Freud. Ao seu lado um vendedor recita salmos. Diz fazer parte da normalidade deste mundo e eu já o aceitava quando, com jeito de entendedor, o moço do bar teoriza acerca de um livro e um visitante cita todas as possíveis cores escuras. Então o padre, sem permeios e com voz monomaníaca, diz: "Se não fôssemos irracionais, veríamos todos os tons de preto na noite, sagrado generoso fim do mundo..."  e sorrindo faz o sinal da cruz. Entendo e agradeço, mesmo pedindo o preço, a bênção ou talvez a assistência de algum empregado do sebo. 
Era corriqueiro agradecer e emocionar-se no sonho. Em sua vida normal, porém, Linardo não tinha ligação emocional alguma com as pessoas. Quando agradecia, fazia-o por obrigação. No mundo onírico as sensações eram intensas, na realidade vivia dentro de sombras.
Seus vizinhos e parentes não entendiam, porém não sentiam antipatia por Linardo. O seu jeito fechado era estranho, mas isso já se tornara familiar a todos. Há algum tempo permanecia em casa e não saía à rua, pois não achava importantes as transferências diminutas de conhecimento.
Sozinho, escrevia a carta. Era manhã e a luz do sol cortava o ar em feixes diagonais. Não saía da cama, às vezes caía novamente no sono, encostado no travesseiro. Outras vezes deixava o seu olhar passar pelas coisas ao redor.  Por fim, levantava-se e fazia o café.
"Essa carta não vale nada, porque é uma confissão tola e sem necessidade", dizia. Porém, não conseguia parar de escrevê-la. Não a mandaria, não repartiria seu amor com o rosto que olhava da foto sobre a mesa: a sua destinatária. Mas como parar de escrever a carta? Se havia se acostumado à sua presença morna e aconchegante como café com biscoito de tardezinha, era melhor que continuasse assim.
 


II
O ímpeto
 

“Sonho contigo como se saísse de uma porta sobre mim, um alçapão. Nesse outro acabo sonhando ou vivendo. E ali você se encontra, largado no nada. Eu vou embora sonhar a realidade ou entro em sua casa.”
(Rascunho de carta encontrada no lixo.)

Linardo passeava pela avenida, sujo, vestido com várias camadas de roupas e trapos. Com as mãos no lixo, procurava alimento. Perambulava entre uma e outra estação de trem.
Veículos pesados passavam sobre alicerces de concreto. Carros, ônibus e caminhões. As vibrações causadas pelo peso dos grandes caminhões não paravam. Era andando entre os viadutos enormes da cidade que sentiu algo diferente. Uma tontura? Um ímpeto? Um ímpeto estonteante!
Decidiu morar ali, debaixo do viaduto. Armou uma barraca. Saía pouco. Não precisava, pois o padre aparecia todos os dias. Cheio de compaixão, rezava por sua alma negra. De vez em quando passava também o vendedor do sebo. Trazia livros e papel. Já o pessoal do bar começou a faltar. Morria de fome quando a chuva subiu e invadiu sua tenda.
Assim, cada vez mais, Linardo procurava refúgio na carta. Com a caneta que roubou do bar, escrevia algumas linhas. Dias e mais dias se passaram, até que se sentiu fraco demais para escrever. Onde estava? Não sabia. Reparou nas pessoas ao redor. Nos seus olhos e rostos os passantes transmitiam algum sentimento. Pensamentos se mesclavam à humildade e consolo. Esse mar de humanidade o invadiu de imediato. Por fim, sentia algo que pensava não existir!
Surpreso, retornou à carta. Contrariado, perguntou-se: "O que ela significava há um minuto e o que ela representa agora?" Sentiu ódio. A raiva se apoderou de seu corpo. Agarrou o papel com furor. Tentou apagar as letras, arranhando-as com as mãos sujas. Em vão. Quis rasgar os papéis, mas não teve forças. Avistou uma lixeira e gritou heureca. Porém, quando tentou jogar a carta, primeiro não pôde levantar suas mãos. Depois, viu-se em espasmos, impossibilitado de largá-la. Com cãibra nas mãos, agoniado, achou que alguma cola não o deixava largar seus escritos. Exausto, descansou.
Mais tarde passava pela roleta da estação. A água espirrou em seus pés. Numa sensação de paramnésia, levantou a carta, a fim de não molhá-la. Notando o ridículo da situação, pulou. Já que saltitava, tentou borrar o escrito fazendo espirrar mais água para cima. Encharcou-se inteiro. Os passantes riram dele, mas a carta ainda estava em suas mãos, intacta. Podia ler tudo, linha por linha. Com o corpo anestesiado e febril, deitou-se.
As pessoas aguardavam pelo trem e Linardo estava ali. Segurava a carta como um cantor de tango arrasta seu bandoneón pela dor e a loucura. Entrava e saía dos trens. Sentava-se no chão. Pedia esmolas. Pensou em escrever, cego, uma nova carta invisível, que não lhe ficasse como penduricalho. Começou a recitá-la. Clamou pelos túneis seus lamentos, e pessoas foram ouvindo. Ficou conhecido em algumas linhas de trem como o mendigo da carta.
Era carnaval. Quando entrou num trem, este acelerou de tal forma que uma garrafa vazia rolou até parar ante seus pés. Levantou e analisou o objeto de vidro. Com a direita enrolou a carta e introduziu-a no invólucro. O padre, que entrara junto com ele, o segurou e levantou com ambas as mãos: "Pague uma, leve duas, é dez por cento de desconto, quem vai levar?" Benzeu-a frente a todos os leitores desavisados do sebo, fez uma cópia que mandou autenticar e guardar em um arquivo com a inscrição “Bíblia”. Quando o trem atravessava um trecho com a lateral aberta, Linardo avistou, entre pilastras, uma baía num pôr de sol de chorar de saudades. Arremessou a garrafa pela janela. Um barulho que vinha de longe se tornou ensurdecedor, quando a porta automática do trem se abriu. Um bloco de carnaval entrou. Brincava com a turma, como há muito tempo não o fazia, sentia-se animado. Quando um pierrô o beijou a testa, ele arriscou sambar. Ao sair pela porta, o palhaço tirou a peruca e uma vasta cabeleira apareceu. A porta se fechou. O trem continuou correndo pelo fundo da cidade.
Mesmo não mais trazendo a carta consigo, continuou a recitá-la. Fazia-o pelas estações, pelos corredores dos trens, pelas praias, nas avenidas, enfim onde gente se encontrava. Incrementou a história sobre um mendigo e um pierrô. Depois de algum tempo o povo já o conhecia sob o apelido de “Pierrô”.
Da primeira vez lhe pareceu mais uma miragem de sua cidade aquática a ser ignorada: espalhadas por diversas estações, depois pelas ruas, pela cidade inteira, havia cópias encadernadas da carta abertas à leitura de todos. Sem titubear, foi arrancando tudo que encontrou. Já em estado de estafa, achou ao final de um dia de muito trabalho uma localidade pela qual já passara. Nela havia novas fotocópias. Era uma luta injusta: se recolhia aqui, novas edições já apareciam ali.  Alguém as espalhava.
Não se sabe quanto tempo depois, estava passeando numa rua quando viu um caixote. Dentro deste, a cópia de sua carta. Correu e achou no outro lado da rua alguém manuseando pincel e cola. Uma mulher.  Ele atravessava a rua, mas um carro veio, desviou dele e acertou o corpo dela.  Correu para salvá-la. Os primeiros socorros apareceram e logo depois a ambulância a levou para o hospital. Ele ficou ali, não disseram aonde a levariam, muito menos pensaram em trazê-lo junto. A carta, na calçada, em centenas de cópias, exalava um forte perfume e calava.
No início era assim: o silêncio. Ele não podia pensar. Às vezes vinha a imagem dela. Aquele “pierrô louco”. Talvez estivesse em coma, sonhando profundo. Tentou achá-la em alguns hospitais, mas ninguém  informou ao mendigo se um pierrô ali estaria ou qual era o seu estado de saúde. As enfermeiras chamavam o serviço de segurança para deter o mendigo. Ele era levado até a porta e essa se fechava.



III
O futuro

O que terá acontecido contigo? Amanhã, com gosto de Deus, será outro dia. Ainda hei de postar aquelas palavras que deixei de te dizer. E aquilo que não aconteceu haverá de vir.
(Rascunho de carta encontrada no lixo.)

Durante algum tempo, Linardo fora dado como perdido. Ao ver um mendigo, seu amigo Tomás pensou que ele se assemelhava muito com alguém conhecido. Só se lembrou de quem depois de chegar em casa. Gustavo, ao ouvir essa história, não acreditou. Para ele, Linardo estava em Machu Picchu ou em Berlim. "Deve estar se picando por aí, saca? Com certeza um caso perdido. Além disso, esse mendigo puxava o erre que nem Linardo?" Tomás balançou a cabeça: "Não". E pensativo, deu uma forte puxada no cigarro de folha de seda.
Seus pais pensavam em diversas versões para o seu paradeiro. Quando sua tia falou a seu pai que vira alguém muito parecido a Linardo numa estação, renovaram-se as esperanças. Ela reconhecera a voz e perguntou quando voltaria para casa. O mendigo nada mais fez além de silenciar e a ignorou. Ela não conseguia imaginar Linardo assim e também não enxergava bem. Por isso foi buscar seu filho, que trabalhava na viação, para tirar a prova e trazer Linardo para casa. Mas, de volta à estação, não o encontraram. Em casa, comentou o fato. Os detalhes do paradeiro de seu filho foram demais para seu pai e o deixaram desgostoso. "Meu filho, mendigando?" Ele voltou aos seus afazeres, sem pensar em procurar por ele.
Linardo preferia ficar à paisana. Afinal, ninguém reconhece desconhecidos nesse mundo mesmo. E um mendigo é sempre um desconhecido. Era prazeroso ser reconhecido e confortante ver o rosto de seus amigos e familiares mudar de feição em poucos segundos: partindo de surpreso e esperançoso, passando por reticente, incerto, até chegar à frieza, à tristeza ou simplesmente a alguma mímica de desmerecimento. Ria depois de irem embora.
Para não voltar a encontrar família ou amigos, mudou de cidade. Lá arranjou um emprego: escrevia textos, frases e poemas. Poderia ser uma congratulação, uma carta bem redigida encomendada por um amante ou amigo ou mesmo um slogan para confeitaria. Habitava nos arredores de uma estação de trem. Não mais o chão duro, tinha um quarto simples, com cama arrumada, roupa limpa, todas as refeições inclusive. Nenhuma mordomia, uma vida menos marginal. Já aparentava o Linardo de antigamente e ninguém havia por perto que o pudesse reconhecer.
Naquele momento havia pouco a fazer. Era novamente carnaval e o movimento estava fraco. Tinha acabado uma curta redação romântica, que seria lida pelo padre em um casamento debaixo d'água. “Esses loucos!”, pensava, "o importante é que pagam bem". Foi quando um par de muletas se postou à sua frente. Olhou para cima e viu uma moça. “Você poderia me ajudar a atravessar a rua?” Suas mãos, agora livres de epístolas, espasmos e medos, sentiram as mãos dela. Era pierrô, a mulher acidentada, aquela que copiava a carta que ele tanto recitou pela cidade! Ela beijou a sua testa, como naquele dia no metrô. Choraram juntos.
Logo tomariam juntos chá de jasmim no apartamento dela. O bairro era cheio de casas com jardins, portões, muros e árvores grandes. Na varanda do prédio de arquitetura interessante floriam bonitas acácias. "Você nunca me acharia em São Paulo. Logo depois que melhorei um pouco, minha família me transferiu para o hospital daqui do Rio. Que época louca", disse. E sorrindo lhe pediu: "Me conta como você chegou aqui?" Ele explicou como conheceu um caminhoneiro e quantas horas demorou para sair da maior cidade da América do Sul, pela Marginal...
Sandra, a jovem que o salvou da loucura e da miséria, esteve um mês ainda em recuperação.  Passaram-se alguns meses e ele estaria novamente no mesmo apartamento, mas desta vez como morador. A mudança foi minúscula, não havia juntado quase nada na pensão que habitara.
Depois casaram-se.  Uns anos se passaram e ele se tornou um profissional na área de publicidade. Cria slogans e escreve textos que trazem sucesso, impulsionando as vendas de diversos produtos. Aclamado com prêmios, pensa dedicar-se à literatura infantil.  Ela pensa em ter filhos. Não hoje. Trabalha na criação de propaganda, amando e administrando Linardo. São um par perfeito, pelo menos para as revistas e as colunas sociais.
Uma noite saíram para festejar em uma discoteca VIP mais uma campanha bem sucedida. Danças alegres, ritmos frenéticos, o par tinha força e frisson unidos, sem nunca faltar glamour. Ao lado de Linardo e Sandra, seus colegas e amigos precisavam se esforçar muito para brilhar e mesmo assim não pareciam alcançá-los. Os dois eram de uma alegria verdadeira, diziam os desfalcados de inveja. Mas todos acabavam concordando que era o casal perfeito. Aproveitando uma pausa do DJ, foram em direção ao bar, para recarregar. Uma taça de champanhe seria o brinde ideal.
Lânguida, ela se acomodou no balcão e o mirava fixamente, quando ele se deparou com uma garrafa. Não a reconheceu de imediato, mas sim seu conteúdo, depois de achar sua carta. Em um jato a sua memória lhe devolveu o passado nada remoto. "Preciso de ar fresco", disse. Olhou para o balcão, um vestido elegante preto lhe chamou a atenção. Grávida, a moça da carta, que limpava copos, obcecada, contava: "preto-carmim, preto-ocre, azul-marinho escuro..."
Navios passam pela baía. Uns entram no cais e descarregam. Outros se vão, com novas mercadorias, para o alto mar. É preciso circundar embarcações encalhadas, presas a sedimentos. Cuidado. À noite a maré irá soltar esses navios-fantasmas, que voltarão a navegar, sem direção.

28 de março de 2008

A GORDA NA JANELA

A viagem foi boa.
A gorda entrara cedo para preparar as saladas. Expediente puxado, das seis à meia-noite, com escassas pausas, viu nosso avião passar, achou que era miragem e ficou parada. Boquiaberta e com os olhos esbugalhados. E daí o flash. E ficou olhando.

Me lembro da primeira vez que vim ao Sérgio's. Eram os anos 80, época Dancing Days.
Guilherme Arantes fazia sucesso. Minha família veio para São Paulo porque as chances de emprego eram melhores. Aqui se ganhava mais dinheiro, aqui se aumentava a auto-estima.

Já naquela época os paulistas tinham uma afeição por esse aconchego peculiar. O costume consistia em chegar em casa do trabalho, tomar banho, vestir uma roupa legal, pegar o carro e ir ao Sérgio's. Aqui esperava a monotonia amada do espeto gaúcho. Ou pizza. Boa descoberta. Uma ótima vista para o tráfego do aeroporto. Era novidade para mim e logo quis imitá-los.

Alguns meses mais tarde, estava no banco traseiro da Brasília de meu pai. Vínhamos da tia de Casa Verde e li: Chur-ras-ca-ria Pi-zza-ria Sér-gio's. Com vírgula em cima. Piscava em vermelho e verde, em letras de propaganda antiga que refletiam no asfalto molhado de garoa. A arquitetura do prédio era um pouco estranha. Ocupava um bloco inteiro e tinha janelas de vidro de lado a lado. Com as luminárias todas acesas, se via gente. Os garçons carregavam massas, pizzas e carne pelos extensos corredores do salão. A gorda enorme servia salada, gentil, alegre. Hoje ela parece maior ainda, um elefante que cobre o panorama. Coitada, o flash a deixou traumatizada.

Nos meus dias de office-boy acabei vindo aqui, mas não gostei do serviço, apesar de gostar da comida. Os garçons eram metidos, as mesas eram sujas e todos faziam muito barulho. Além disso, as mulheres usavam perfume demais. Mas a vista era boazinha e acabei vindo mais vezes. Era gostoso ver os aviões passando: desciam, faziam curvas. Aplainavam. Subiam e sumiam.

Depois, com um emprego melhor, comecei a jantar aqui com minha namorada Clara. À noite as luzes dos aviões passeiam num ritmo pacífico. A gorda, à qual nunca perguntei o nome, nos servia a sobremesa sorrindo. Eu e Clara nos acostumamos a esse lugar. Assim, não foi difícil escolher, depois que nosso avião usou toda a pista de aterrissagem e atravessou a avenida.

Hoje os copos escorregam suavemente pelas mesas. Às vezes cai um no chão. Os garçons se renderam às assombrações e o cozinheiro sempre prepara um galeto e uma picanha extra para mim e Clara. Quanto à vista, a gorda não sai da janela. Será que ela acha que é fantasma como a gente? Tá atrapalhando a vista!, gritam uns. Não sei o que ela tem, viu, não ouve!, comenta uma senhora. E a gorda fica ali, gigante, parada na janela. Olhando para fora, pro nada.

24 de fevereiro de 2008

DESERTO DA MEMÓRIA

"O Gulasch deve estar ótimo", digo com água na boca. Sinto o cheiro vir da cozinha. Acho que as batatas também estarão boas, acompanhando-o. Isso quando estiverem cozidas, na água salgada. Mas até lá ainda precisam serem postas no fogo.

Gulasch, o que é isso?, pergunto-me. É uma comida típica da Hungria, me responde alguém. É carne de porco cortada em cubos, com cebola, pimentão e molho de tomate, tudo isto cozido bem, segreda-me sua voz sussurando. É mulher. Pede para que fosse cuidadoso com as informações que espalho: pode ser usada carne de boi também e essa talvez seja a regra na Hungria. Um outro explicou-me que quem procura na Hungria por Gulasch, não encontra nada.

Lá eles o servem sob o nome de Pökölt. Ou algo que o valha, diz um senhor fumando tabaco de corda. Contendo batata e outros legumes, assim como uma pimenta típica trazida pelos turcos, o Gulasch húngaro é diferente do servido na Alemanha.

Chupo o aguardente e olho debilmente pela janela da cozinha. Cozido a fogo aberto, numa caldeira, lá está ele: outdoor food das coxilha do sudeste europeu, o Gulasch também é comida de acampamento. Puszta, campos torneados por morros. Vaqueiros saem da lida para contar as histórias do dia passado. Quando a isca fisga algo, se sente agora também o cheiro de peixe. Sim, também de seres aquáticos se alimentam os húngaros, peixe gordo, do tipo Sander lucioperca, ou mesmo a carpa. Os duqueses, condes, imperadores presentearam essa terra com peixes e lagoas. Halászlé chama-se esse prato. A "paprika", aquele pó vermelho feito de uma pimenta, é obrigatória nos pratos da região e também dá o tom a essa iguaria.

A lenha para o fogo aberto, uma herança dos turcos e desses filhos das estepes mongóis. Pouco a pouco o cheiro vai se acentuando e se juntam mais tons de torrado. A lenha precisa ser renovada. O frio da noite vem, mas o fogo e o álcool afastam a sensação.

De repente, os legumes e a carne estão no prato e o tempero da paprika e do sal se espalha pelo ar. O ar gélido se mistura com o Gulasch e o seu calor me adentra. Me esvazio: o deserto da Puszta penetra minha memória. E não me lembro de mais nada, tudo é sensação: Deserto de memórias.