21 de novembro de 2010

IRMANDADE MORTÍFERA




O deserto parecia infinito. Comíamos tâmaras, quando Ibra disse.
Nós nunca fomos tantos, né.
É, respondi.
Mas de todos algarismos, prefiro o um, sentenciou de faca em mão.
Fiz uso de minha adaga para me defender da fome de Ibra.

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Passaram-se alguns dias e a imagem de uma enorme e rica caravana apareceu. Ouvi toda a balbúrdia de animais cansados e mercadores e quase me perdi nessa ilusão.

Continuei a caminhada, ignorando a miragem, até chegar numa sombra na areia. A sombra me sugava para baixo e Ibra, fantasiado de mulher, me chamava a dormir com ele.

- De todos os algarismos prefiro o um, balbuciei nervoso e quase acertei a estranha que me socorria.

6 de setembro de 2010

Pimenta contra Banana

Esse ano é ano de eleições, então nada melhor do que novos candidatos para novos eleitores!

A nova candidata à presidência, pelo partido das ardidas (também conhecido como PARDIDAS), é a D. Pimenta Malagueta. Apresentando uma grande pungência nos debates, já mostrou ao povo ao que veio, esquentando a gafieira e animando multidões. Muitos indefinidos já disseram que provaram e já estão aderindo a ela.

É o caso de Feijão Fradinho (nome foi mudado pois o entrevistado pediu anonimato): a janta fica uma delícia quando se vê um debate com dona pimenta na tevê.

O adversário de D. Pimenta Malagueta (P.M.) é forte, é potente e tem um caldo mais grosso! Coitada de P.M.! O concorrente é vitaminado e tem muita função. Já passou por muitos cargos, e agora se encontra na luta por votos: Seu Banana Nanica!

Com muito vigor, Seu Banana Nanica (do partido das Frutinhas Conhecidas) diz que não irá prometer nada do que não poderia cumprir. Enfim, nada do que já não se desconfiava. Mas o que diferencia P.M. de B.N.?

O perito em elocubrações retóricas João Silva da Silva & Silva & Associados teima em que Seu Banana Naninca esteja muito mais bem preparado para os 20 debates que acontecerão na televisão do que P.M. . Já a Society Embromation diz que blablabla...

3 de setembro de 2010

O verdadeiro surdo

Defina-se, ela disse para ele.
Ele tomou uma decisão e conseguiu: definhou.

12 de agosto de 2010

O PASSEIO DE BUICK



Foto: Stephen Foskett

Quando Alberto ofereceu à sua esposa Susan para ser o seu instrutor de auto-escola, ela redarguiu com olhar sério e vazio que “infelizmente Gustav já havia agendado”. Na Alemanha isso de se marcar compromissos com antecedência exagerada é normal, as pessoas já têm suas agendas prontas para daqui a um ou dois meses. Então, deixou estar, que fosse assim. Achou estranho haver oferecido aulas práticas para a carteira de motorista de Susan em um fim de semana livre, ela já havia se encontrado com Gustav e sua esposa, em um desses encontros regados a água gaseificada em temperatura ambiente e bolo.

Alberto conhecera Gustav e sua esposa Helga naquela tarde de primavera clara. Estranhou o olhar fixo e ininterrupto por trás das lentes verdes escuras dos óculos de Gustav. A boca carnuda, o rosto redondo e a barba impecavelmente feita, sempre impecavelmente feita, como se não crescesse nada no rosto. O resultado era uma pele que tinha a aparência de carne de porco salgada. A pele desgastada dos verões passados no mar do leste. Nos dez verões passados na praia Gustav conseguiu queimar tantas vezes a pele, que com 50 anos a sua pele parecia a de um elefante. Depois de todos esses anos começou a festa: Gustav herdou de seu único tio as casas e diversos carros, entre outros, um carro especial.

Alberto não esperava mudar o mundo nem a forma de tratamento dos alemães, mas que pelo menos pudesse se sentir útil, iria reclamar a Susan. Mas enfim havia esquecido.
Estava chateado com a perspectiva de um domingo em casa quando Susan lhe falou de manhãzinha que Gustav queria ir aos morros bucólicos da estrada romântica.

_ ... Hoje?

_ Sim. Gustav gostaria que você e Max nos acompanhassem. Ele disse que posso dirigir o seu carro especial.

Alberto achou interessante. Enfim Susan iria dirigir e isso já bastava. Aprendesse a dirigir logo, para poder levar Max para o kindergarten.

Ainda faziam os sanduíches para o pic-nic quando o carro estacionou. Era um Buick preto. Carro de velho? Não, já era raridade. Alberto foi dizendo que isso não podia ser. Quando viu a marcha automática, Alberto olhou para Susan de soslaio, perguntando se sabia que é melhor aprender a passar as marchas manualmente. Mas ela não dava ouvidos e já estava a caminho de dar o alô serviçal a Gustav.

Apesar da rota romântica ser uma das atrações da Suávia, destaque de catálogos de turismo, nunca havia passeado por ela. Estava naquele pedaço da Alemanha já havia um ano porque Alberto havia conseguido uma boa oferta de emprego, mas não visitavam nada da região. Eram as saudades de sua cidade e da região da Alemanha, dos seus pais, da comidinha da mamãe nos domingos. Por isso mesmo precisava sempre ver a “família Gustav”, porque eles eram amigos de longa data da família. Uma das casas herdadas por Gustav ficava na floresta negra.

Gustav falava inspirando ar porque a respiração não cobria a demanda de uma frase. Dava aflição. Talvez por isso falasse muito pouco. Mas por que a voz de comando? Talvez o convívio com Helga, que só fazia o que ele pedia, o deixara assim.

Logo notaram que Susan já sabia andar de carro, que só se sentia indecisa se já poderia começar a auto-escola.

Saindo da cidade os belos lugarejos começavam a passar pela janela do Buick. Redondos e bucólicos morros, que deixavam a gente alegre, transmitindo bem-estar. A Alemanha é mulher forte, como uma grande guerreira segurando espada sobre uma pilha de feno. Seus campos são verdes de um verde forte e marrons. Os vales são sombreados como a sombra de uma varanda. Seres míticos não são necessários quando a beleza passa pela janela, sem aviso.

Estava hipnotizado pelas dobras daquela nuca, os juncos que desciam para o dorso. Parecia que se descesse até as ancas ainda encontraria o mesmo vale de pele e qualquer sujeira que passara despercebida no banho. Era bom olhar através da janela, até porque isso impedia que fixasse os olhos no pescoço pele de elefante de Gustav.

As paradas eram ao mesmo tempo um alívio para sair do carro e um problema porque tinha que aguentar Gustav, que parecia ter problemas de saúde, ora lhe doíam as costas, ora uma outra região do corpo. Ele não se levantava com facilidade.

A sensação de estranheza ia crescendo. Já não desciam mais do carro, apenas estacionavam ou paravam. Alberto louco por um pouco de ar fresco, se sentia sufocar.

Gustav pediu para dirigir. Silêncio.

Alberto sentia o ar condicionado rasgando os pulmões. Dor de cabeça. Como que numa reação automática, abriu o vidro.

Curvas.

Mais curvas.

Gustav sentiu o vento da janela aberta e advertiu Alberto.

− Pardon, pardon...

Max sentiu e começou a chorar.

A viagem continuou cada vez mais sórdida. Curvas caladas, subidas e descidas quietas.

Às vezes o choro de Max. Até a última parada para o almoço às três da tarde.

Gustav pediu joelho de porco com chucrute e batatas. De repente, se tornou falante. Respirava fortemente, como se tivesse digerido por longo tempo o que verbalizava. Seu rosto estava vermelho. Meu Deus! O ar condicionado poderia estar destruído! Alberto! Por acaso não sabe a tolice que cometeu? E nada mais. Não tossiu como de praxe, nem parecia sentir falta de ar. Aparentava estar mais saudável. A esposa que era enfermeira, geralmente prescrevia espontaneamente remédios, tabletes e pílulas a granel, conforme o seu estado de saúde, mas agora apenas estendeu o copo d’água e um placebo qualquer que achou no bolso, só para que Gustav relaxasse.

A volta para casa correu normal. Susan não quis dirigir. Gustav novamente. Pelo menos assim ele não falava. Alternava baixar e subir do quebra-sol, pois os vales eram escuros demais para os óculos escurecidos e os morros eram ensolarados demais para os seus olhos claros.

Em uma descida Gustav fitou o sol do horizonte com um olhar confiante. Não baixou o quebra-sol dessa vez. Sorriu com os lábios de joelho de porco abertos e desfaleceu sobre o volante. O carro não se desgovernou, pois as rodas estavam retas.

A velocidade aumentava e Alberto viu o suor frio escorrendo pelo vales na nuca de Gustav. Susan puxou o breque de mão. Helga estendeu o braço para o volante e assim ficou, pois o corpo do marido desmaiado caiu sobre o seu enquanto o carro cambalhotava no ar sobre a pista cinza.

6 de junho de 2010

PASÁRGADA REVISITADA

"A impermanência é uma característica dos dias de hoje, mais do que dos dias da Bíblia. A unidade de Deus faz a lembrança necessária, assim como a exegese de um sinônimo para um ator permanente nas brumas da existência. Poderíamos ter dias mais calmos sem pensar em coisas acontecidas, quando a unidade de Deus nos pede racionalidade, abstração e poder de lembrança infinita."

Ari acordara mal disposto e controlava um texto seu. Beleza destoada pela poluição do inverno paulista podia-se sentir nessa manhã. A falta de chuva fez acumular uma densa cortina de gases sobre São Paulo, ele se agarrava às cobertas, apertando elas à sujeira de seu corpo depois de mais uma noite na Pasárgada. Lia seu esboço: "...por um lado Deus pede interioridade, ao invés da exterioridade entrevista em adorações de seres ou de objetos, por outro lado a exterioridade de um Ser único." Ari mantinha palestras consigo mesmo sobre sua obra. A sua musa sempre foi seu pensamento e mais nada. Continuava lendo: "A necessidade da pluralidade dionísica e sua melhor lembrança, alinhavando a via do pensamento humano, precisava ser dito, não contrariava a essência da unidade de Deus."

Ari resolve enfim acordar e escolhe a roupa que transmita o mais comum sentimento. No banheiro toma um banho bom e sai. O seu corar do rosto e gesto de eterna e profunda interrogação deixa rastros por onde passa. As pessoas olham para Ari, pois ele olha para tudo interrogando. Foi quando avista a casinha verde no meio da rua, algumas meninas como que esperando por ele defronte.

Pergunta à dona da casa o funcionamento e ela responde como uma empresária. "Durante sua permanência em nosso recinto nossas garotas cuidam do Senhor. Se desejar, o Senhor pode trazer seu preservatório ou nós podemos oferecer-lhe preservatórios próprios de nossa casa..." Etc. Ari entra, toma um drink, escolhe uma menina boa com a qual não transa, conversa uma ou duas horas, paga e vai embora pra Pasárgada. O sol bate forte por lá. Pensa: "... o sol vive da impermanência de seus fótons, que são criados pela excursão de partículas pequenas através de camadas representando a energia necessária. E conhecemos o sol apenas pela permanência da luz, mas sabemos que ele é impermanente, às vezes há mais vento solar, outras horas menos, uma hora o sol apagar-se-á e outra permanência deiforme será esvanecida existindo, outra centelha queimará de desejo..." Debaixo de sua língua um tablete lisérgico faz cócegas, ele se derrete antes dele poder senti-lo com sua língua. Então acorda, o poema de Manuel Bandeira aberto no sonho.

2 de junho de 2010

Amigos A1, A2, A3 e A4

Um dia me perguntaram e em uma carta respondi, listei os amigos que ainda não sabia se tinha mesmo. Apenas para mostrar que tinha, não só um, já tinha alguns e que eu não era tão só como se poderia pensar. Meio por pirraça, porque quem pedia a lista não estava ao meu lado e me valia a vida, uma vida que amizade nenhuma engloba.

Meus amigos eram de diversos lugares, de diferentes classes sociais e viviam todos na mesma rua, naquela que eu habitava. Eram mistura boa, tinham gostos por coisas variadas.
Conheci-os na pelada casual de rua, no estar-à-toa-na-rua.

Ouvi falar que A1 morreu. Passava drogas. Seu pai urinava no lavabo com a porta do barraco escancarada.

A2 se babava falando das coxas da morena de um filme de um programa de tevê semanal chamado Sala Especial.

Dizem que seu tio o comia, depois A3 parece que se picava. Tinha amizade com A1 durante algum tempo. Apenas ouvi falar também: certa vez sua mãe abaixou sua calça e, gaúcha guasca, deu-lhe uma sova de tábua, na frente de todos da vila. Há muitos anos atrás, lá na rua de casa, A3 cobrou-me a amizade que nunca tivemos. Estranhei, mas me lembrei que estava listado naquela carta de muitos anos atrás, e por isso aceitei-o meu amigo pelo dedo uma conversa fiada de despedida.

Há tempos já nem via mais A4, porque ele era batista e se meteu na igreja, acompanhava esposa num paletó de domingo. Passava cabisbaixo, escodendo a Bíblia negra em capa de couro debaixo do braço, como saco de pãozinho em fim de tarde. Subia a rua solenemente. Outro dia, nos encontramos por acaso no ônibus. Equilibrando-me de pé disse que me mudaria para a Alemanha e ele me fitou como se eu nunca mais voltasse, como quando criança mostra que não é brincadeira - e já éramos adultos - para dizer que lá (aqui) tudo seria muito melhor para mim. Como se eu nunca mais voltasse.

Anedota

- Não me fala nada, já sei. Aí você pegou cimento, areia, jogou ambos numa banheira, o mar à sua frente, e ficou misturando água com a mão ilusória até dar liga. E daí jogou num vaso-coração. Deitou o pé fraco. Esperou secar. E se jogou no mar.

- Sim, mas antes ainda fisguei você, e te coloquei no meu bolso.

O peixe olhou por uma última vez o asfixiado sem se lembrar do diálogo.

ELEGIA

Feliz por não estar mais pensando nEla e cansado do trabalho, se pôs a dormir. O
sono é lento. Nisso, ela entra pela janela do quarto de dormir, sua encantada
amazona missioneira, em um manto marrom medieval e longa cabeleira encaracolada.
Disse:
- Quero queimar as roupas de vícios que marquei em mim. Quero cantar alto o
nosso grande Amor, mesmo que de pés cansados. Pois aonde eles nos levarem foi
onde Ele quis estar.
Jogando o escudo de metal ao chão reiterou:
- Um sem outro peca. Vem para mim, que sejamos íntegros assim.
Num ímpeto, correu para a estação de trem. Ao chegar lá, uma adolescente
queimava numa plataforma inalcançável seu primordial diário.