24 de outubro de 2011

Ivo saiu

Micro-Conto (menos de 120 palavras)
Tema: Insônia
Título: Ivo saiu

Ivo saiu

Ivo saiu. Saiu do apartamento. Do apartamento desceu para a rua. A rua se abriu ao longo de seus pés. Os pés caminharam, caminharam para a festa. A festa era música chamando. Os pés o guiaram mais longe, o caminho era de volta, pois acabara a cidade... É que aqui as cidades são pequenas.  Falou com Deus. Tentou dormir na grama, no banco da praça, nalgum lugar. Já era dia. E Ivo foi à missa. Saiu da igreja e saiu de si, não quis voltar, saiu, voltar não, sair. Saiusaiu sem saber ao que veio.

7 de outubro de 2011

A operação de Juanin

A operação de Juanin

Parte 1

A liberdade viera, mesmo que ainda parcial, agora que chegava dezembro. Os estudos deveriam dar uma pausa. O costume dos tempos estudantis já estava cravado na mente de Juanin: começo, novos professores; provas; amizades do segundo bimestre, pois havia-se de comparar as notas, aquela garota e seu olhar; esforço, provas do segundo bimestre; férias de julho; retorno das férias, reencontro com amigos; preparação, provas; contagem de diferença para o quarto bimestre, provas; tudo isto recheado de pensamentos, que, no final, não fazem a diferença.

Juanin via um cigarro inteiro com a ponta queimada, assim como quem quisesse ter fumado de repente tivesse dito: “Deus me espera nos céus”. Na sala, à mesa escura, nada lhe interessa, senão segurar caneta  com a ponta dos dedos. Uma formiga desenha uma estrada na folha de papel onde escreve. O tédio é um Golias e ele não tem nenhuma pedra. Então, seu irmão passa sapateando de frente para ele, de uma porta lateral para a outra fazendo sinais obscenos.

Pausa. Três formigas passeiam pelo seu caderno. Várias outras pela mesa. Juanin parece uma estátua. Olhar? Não há olhar. Poço fundo. Verde. Tom de musgo. Passa a mão esquerda em seus cabelos lisos, olha-a: dez mil fios de cabelo. À luz do sol batendo sobre a mesa, percebe trinta milhões de formigas inocentes.

Inconscientemente, vai para a geladeira o gordo Juanin, sem expressão, considerar o que poderia comer. Avista pepinos em conserva, dentro de um vidro; pressão, força, no sentido anti-horário, lindos pepinos verdes e molhados. Passa por sua mente a imagem da propaganda de uma geladeira, abrindo-se automaticamente e mostrando pepinos - fresquíssimos pepinos.

Fisga qualquer pepino com o garfo: a mordida faz desaparecer boa parte da sua consciência. Seu paladar sente um gosto profundo, que não se extingue, o gosto de validade passada: “ Hm podre”... Com o pedaço suspenso na boca: “Acaso não me engano”? Depois de uma nova mordida: “Mentirá o meu paladar”? Mastiga potentemente o pedaço e por fim o come; Acaba mordiscando a ponta do garfo. Joga o resto do garfo no lixo.

Sua mãe entra na cozinha sapateando, alegre para muitos, mas destoando com o que faltava a Juanin. E como lhe faltavam coisas: nisto caiu-lhe de sua inexpressividade até um ai. Mas isso não interessa.

Há abelhas onde quer que sua mãe vá. Abelhas úteis e consolos amanciados repentinamente. Juanin, ao voltar para a sala onde há alguns minutos estudava, vê as formigas esperando por ele. Passa a mão esquerda em seu cabelo: não há mais que um fio de cabelo. Tranpassa a sala, para subir a escada, algumas formigas se agarrando nele, “procurando açúcar".

Subindo os degraus, encontra-se com seu pai dando cambalhotas, o jeito mais fácil para tudo, distribuindo dinheiro ao mundo e a todos os espíritos, enrolado na máxima propagandista “o que os outros podem, você pode também”. E se foi, cambalhota sobre cambalhota. Saravá!

Ah, a escada de mármore branco, um canto gregoriano, uma missa solene, ah, um gospel suingado! Juanin percorre o corredor do andar dos quartos “branco-escuro-branco-escuro” e entra no seu quarto de dormir num salto triplo mortal.

Fosco. Toca-lhe um cheiro de sono movido por narinas quentes: seu irmão dormindo e um verme de cupim fazendo cócegas em seu pé. Circunda o hálux, mais conhecido como joanete, aquela deformação no osso do lado do dedão do pé. Vendo em detalhe, o circundam outros milhões de cupins, como numa Meca, vindo a ser, então, a joanete, talvez, uma pedra sagrada. Juanin repara de novo sob a luz fosca e vê os cupins devorando sua cama. Não faz nenhuma diferença naquele momento: Juanin se deita. Pelas cócegas o sono vem e ele, como num dever, se encolhe e por fim se deita na cama. Os cupins, devorando seu corpo em cócegas, as fezes destes animais por fim fazendo ressurgir um novo Juanin.

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Acordando, Juanin sentiu seu corpo mole, volumoso. Gosto de glicose de hospital. Juanin foi entender o que acontecera, enfim, quando viu que não conseguia mexer nem um dedo, nem nenhuma parte do corpo. Depois de entender, encarou o botão sobre sua cama como a campainha para chamar a enfermeira.