A viagem foi boa.
A gorda entrara cedo para preparar as saladas. Expediente puxado, das seis à meia-noite, com escassas pausas, viu nosso avião passar, achou que era miragem e ficou parada. Boquiaberta e com os olhos esbugalhados. E daí o flash. E ficou olhando.
Me lembro da primeira vez que vim ao Sérgio's. Eram os anos 80, época Dancing Days.
Guilherme Arantes fazia sucesso. Minha família veio para São Paulo porque as chances de emprego eram melhores. Aqui se ganhava mais dinheiro, aqui se aumentava a auto-estima.
Já naquela época os paulistas tinham uma afeição por esse aconchego peculiar. O costume consistia em chegar em casa do trabalho, tomar banho, vestir uma roupa legal, pegar o carro e ir ao Sérgio's. Aqui esperava a monotonia amada do espeto gaúcho. Ou pizza. Boa descoberta. Uma ótima vista para o tráfego do aeroporto. Era novidade para mim e logo quis imitá-los.
Alguns meses mais tarde, estava no banco traseiro da Brasília de meu pai. Vínhamos da tia de Casa Verde e li: Chur-ras-ca-ria Pi-zza-ria Sér-gio's. Com vírgula em cima. Piscava em vermelho e verde, em letras de propaganda antiga que refletiam no asfalto molhado de garoa. A arquitetura do prédio era um pouco estranha. Ocupava um bloco inteiro e tinha janelas de vidro de lado a lado. Com as luminárias todas acesas, se via gente. Os garçons carregavam massas, pizzas e carne pelos extensos corredores do salão. A gorda enorme servia salada, gentil, alegre. Hoje ela parece maior ainda, um elefante que cobre o panorama. Coitada, o flash a deixou traumatizada.
Nos meus dias de office-boy acabei vindo aqui, mas não gostei do serviço, apesar de gostar da comida. Os garçons eram metidos, as mesas eram sujas e todos faziam muito barulho. Além disso, as mulheres usavam perfume demais. Mas a vista era boazinha e acabei vindo mais vezes. Era gostoso ver os aviões passando: desciam, faziam curvas. Aplainavam. Subiam e sumiam.
Depois, com um emprego melhor, comecei a jantar aqui com minha namorada Clara. À noite as luzes dos aviões passeiam num ritmo pacífico. A gorda, à qual nunca perguntei o nome, nos servia a sobremesa sorrindo. Eu e Clara nos acostumamos a esse lugar. Assim, não foi difícil escolher, depois que nosso avião usou toda a pista de aterrissagem e atravessou a avenida.
Hoje os copos escorregam suavemente pelas mesas. Às vezes cai um no chão. Os garçons se renderam às assombrações e o cozinheiro sempre prepara um galeto e uma picanha extra para mim e Clara. Quanto à vista, a gorda não sai da janela. Será que ela acha que é fantasma como a gente? Tá atrapalhando a vista!, gritam uns. Não sei o que ela tem, viu, não ouve!, comenta uma senhora. E a gorda fica ali, gigante, parada na janela. Olhando para fora, pro nada.