"O Gulasch deve estar ótimo", digo com água na boca. Sinto o cheiro vir da cozinha. Acho que as batatas também estarão boas, acompanhando-o. Isso quando estiverem cozidas, na água salgada. Mas até lá ainda precisam serem postas no fogo.
Gulasch, o que é isso?, pergunto-me. É uma comida típica da Hungria, me responde alguém. É carne de porco cortada em cubos, com cebola, pimentão e molho de tomate, tudo isto cozido bem, segreda-me sua voz sussurando. É mulher. Pede para que fosse cuidadoso com as informações que espalho: pode ser usada carne de boi também e essa talvez seja a regra na Hungria. Um outro explicou-me que quem procura na Hungria por Gulasch, não encontra nada.
Lá eles o servem sob o nome de Pökölt. Ou algo que o valha, diz um senhor fumando tabaco de corda. Contendo batata e outros legumes, assim como uma pimenta típica trazida pelos turcos, o Gulasch húngaro é diferente do servido na Alemanha.
Chupo o aguardente e olho debilmente pela janela da cozinha. Cozido a fogo aberto, numa caldeira, lá está ele: outdoor food das coxilha do sudeste europeu, o Gulasch também é comida de acampamento. Puszta, campos torneados por morros. Vaqueiros saem da lida para contar as histórias do dia passado. Quando a isca fisga algo, se sente agora também o cheiro de peixe. Sim, também de seres aquáticos se alimentam os húngaros, peixe gordo, do tipo Sander lucioperca, ou mesmo a carpa. Os duqueses, condes, imperadores presentearam essa terra com peixes e lagoas. Halászlé chama-se esse prato. A "paprika", aquele pó vermelho feito de uma pimenta, é obrigatória nos pratos da região e também dá o tom a essa iguaria.
A lenha para o fogo aberto, uma herança dos turcos e desses filhos das estepes mongóis. Pouco a pouco o cheiro vai se acentuando e se juntam mais tons de torrado. A lenha precisa ser renovada. O frio da noite vem, mas o fogo e o álcool afastam a sensação.
De repente, os legumes e a carne estão no prato e o tempero da paprika e do sal se espalha pelo ar. O ar gélido se mistura com o Gulasch e o seu calor me adentra. Me esvazio: o deserto da Puszta penetra minha memória. E não me lembro de mais nada, tudo é sensação: Deserto de memórias.